João Barbosa de Assis e Caetana Souza Tavares eram meus pais. Ele era roceiro, fazia serviço braçal lá na fazenda Santo Aurélio, na beira do Rio Paracatu. A mamãe fazia todo o serviço doméstico em casa. Eu nasci na fazenda Santo Aurélio. não
lembro nada dos meus avós, o papai nunca contou nada a respeito deles. Na roça a
gente não tinha infância, só trabalhava o dia inteiro, correndo daqui para ali.
Lá na roça, desde criança eu capinava envernada, fazia cachaça, rapadura,
açúcar. Desde criancinha eu tocava burro no engenho.
O papai morreu quando eu
tinha dez anos. A mamãe era muito pobre e tinha seis filhos e passamos a ficar
rodando de roça em roça e só depois é que viemos para Paracatu. Eu era o irmão
mais velho.
Viemos morar na Rua Pinheiro Chagas e esta casa já foi demolida. A casa era alugada e eu tinha que trabalhar muito para sustentar a família.
Trabalhei como ajudante de caminhão, viajando para são Paulo, Belo Horizonte e
outros lugares. O caminhão era de José Plínio Cordeiro e de Joaquim Pedro Neiva.
A estrada era só de chão. O caminhão quebrava e a gente ficava na estrada dois a três dias, sem comida. Para chegar em Belo Horizonte tinha que passar por Patos de Minas, e a viagem durava um mês para ir e voltar. Eu ganhava 200$000(duzentos
mil reis) por mês.
Depois larguei o caminhão e comprei duas carroças e fui ser
carroceiro aqui em Paracatu. Com as carroças eu buscava areia, cascalho e carga
do comércio. Também tirava os entulhos de construção. Trabalhei dez anos como
carroceiro e depois da carroça fui trabalhar de guarda-noturno na Prefeitura. Eu
fazia a guarda da garagem, e do prédio da Prefeitura. Arrumei esse emprego
porque pedi ao Joaquim Batista Franco e ele me atendeu. não gostei de ser
guarda, mas eu tinha que trabalhar.
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Acabei adoecendo da vista e aposentei pelo
INPS. Fiquei na prefeitura oito anos, no caminhão onze anos e dez anos como
carroceiro.
Aqui em Paracatu tinha muita carroça e carro de boi. O carro de boi vinha aqui trazer lenha e mercadoria e a carroça era para fazer o serviço da
cidade. O ponto de minha carroça era onde é a Telebrasília hoje. A carroça era
puxada por burro e quem fazia carroça aqui em Paracatu era o Sr. José Popô e ele
fazia muita carroça . O Sr. Popô fazia carroça muito bem feita. Nunca estudei,
meu pai era pobre, minha mãe pobre.
Criamos todos os irmãos sem estudo, não
tínhamos condições. Aqui em Paracatu. Aqui tinha muitas igrejas, as ruas eram
calçadas de pedra e muitos eram os carros de boi e carroças. Tinha também as
festas das igrejas. As festas mais animadas eram a de Santo Antônio, são João e
são Benedito. De todas, a mais animada era de são Benedito.
Esta casa que estou morando é minha, comprei com o trabalho na carroça. A vida antiga era melhor para saúde e era mais difícil para ganhar dinheiro, o dinheiro valia. Naquele tempo não tinha esta doençada que tem hoje. não tinha a diabete, o câncer e a doença de coluna. O povo era mais saudável. No tempo do governo de Getúlio
Vargas ele sozinho comandava o Brasil e era tudo organizado. Hoje o presidente
tem tanta gente para acompanhar ele e é tudo desorganizado. Trabalhei muito
também na Lagoa da Prata tirando ouro com Isidoro, pai de Lurdinha de Pedrinho
da Preferida. Para ir tirar ouro a gente passava por uma trilha e um dia Isidoro
uniu e amarrou os capim de um lado e outro da trilha, para quem passasse pudesse
trupicar e cair, só que ele não esperava que foi sua esposa a Djanira André que
trupicou no capim amarrado e caiu. Mas acabou tudo em brincadeira e muita risada
som Djanira lá no chão.
Os antigos de Paracatu sempre falavam que Dona Beija
morou aqui.
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