Ernesto Joaquim de Santana era o meu pai e minha mãe Carlota Fernandes
Chaves. O meu pai era alfaiate aqui em Paracatu. Ele morou em muitas casa
alugadas. Exercia a sua profissão de alfaiate lá dentro de casa. Lembro que
moramos na Rua da Praça, hoje Rua Temístocles Rocha.
Naquele tempo as casa não
tinham número, só depois de 1930 é que colocaram números nas casas. Meu pai era
um grande alfaiate, fazia terno e a mamãe fazia camisa. Os dois trabalhavam
muito, de dia e de noite.
Eu não conheci meu pai, quando ele morreu eu tinha um
ano de idade. Ele morreu assassinado por causa da política. Ele era um homem
muito inteligente, lia muitos livros. Foi professor da fazenda Bolívia, perto de
Unaí. Naquele tempo aqui tinha dois partidos políticos, o municipal e o popular.
Ele acompanhava o partido popular e era o delegado de Paracatu. Ocorreu um
problema entre dois fazendeiros por causa de terra e ele foi chamado, por um
amigo dele, para ir lá na fazenda Tapera para ajudar resolver a questão. Antes
de chegar na tapera eles foram tocaiados pôr um homem chamado Marciano. Foi um
tiro só. O papai estava a cavalo quando recebeu o tiro. Providenciaram uma rede
e trouxeram o papai para Paracatu, mas chegou morto.
A mamãe assumiu a família
com nove filhos, morando em casa de aluguel. A minha irmà mais velha, Luciola
Santana, já tinha estudos, foi então que o Sr. Samuel Rocha, que era o
Presidente da Câmara e Agente Executivo, arrumou para ela dar aula lá em
Buritis. Em Buritis não tinha escola, tiveram que fazer uma e ela foi a primeira
professora. Para ir a Buritis era muito difícil, não tinha estrada e só ia no
lombo do animal.
Ela aceitou o emprego e a gente foi embora com ela. Chamava
Santana do Buriti, depois mudou o nome para Buritis do Urucuia. Mudamos em 1916
e lá ficamos até 1922. Em Buritis, a nossa vida foi muito sofrida. não tinha
nenhuma civilização, todo mundo era analfabeto, ocorria muito crime. A mamãe
continuou costurando, fazendo terno, camisa e roupa para homem e mulher. Mais
tarde passou a costura de roupa feminina para minha irmà Semira. No ano de 1922,
voltamos para Paracatu, porque a mamãe não queria deixar que a nossa
adolescência fosse naquela terra.
Viemos morar na Rua Direita, aqui em Paracatu,
na casa do Tio Antônio Neto. A mamãe, continuou costurando, mantendo a família
com a costura. As máquinas de costuras eram tocadas com os pés ou pela mãos. A
máquina tocada a mão era da marca "Chagon" e as de pé era "Singer". Mamãe
comprava tecido na Casa Rocha ou Barateza de João Macedo. Comprava pano casimira
ou brim caqui. A casimira era importada da Inglaterra e que usava a casimira
para terno era só as pessoas de maior poder aquisitivo. Fui alfabetizada em casa
e já sabia ler, escrever, somar e subtrair, quando fui estudar no Grupo Escolar
Afonso Arinos.
|
|
As professoras antigamente eram muito preparadas, muito mais do que as professoras de hoje. Os professores homens eram o Juca da Costa, Henrique
dos Reis e Felix da Cunha Chaves. As professoras eram a Dona Altina de Paula
Guimarães, Dona Antônia Coelho de Almeida e Dona Cândida Pinheiro. Os diretores
foram o Demósteno Roriz e Olindina Loureiro. Usava muita palmatória na escola. A
professora perguntava "6 x 6" e quem respondesse certo fica livre e quem
respondesse errado, recebia o bolo ( palmatória) nas palmas da mão. O outro
castigo era ficar de pé ao lado da mesa da professora, ou receber uma reguada no
braço ou na cabeça.
Graças a Deus, nunca levei um castigo no colégio. Estudei
até o 3ºano normal. Formei em janeiro de 1932 e no dia 5 de fevereiro 1933 fui
nomeada por Quintino Vargas. Ele falou que eu era uma menina pobre e que ele ia
me nomear para o Grupo Escolar Afonso Arinos e lá eu lecionei até 1963. Aqui em
Paracatu tinha duas classes sociais, a rica e a pobre.
Os ricos eram os
Botelhos, Adjutos, Brochados e suas ramificações. Os pobres eram o resto do
povo. No jóquei não entrava pobre e nem preto, só podia entrar de terno e
gravata. As casa eram do tipo colonial, tinha muito beco e até beco sem saída.
Na periferia tinha muita casa coberta de capim e palha. Tinha casa de capim lá
no mirante, onde é hoje o Colégio Estadual Antônio Carlos.
No Paracatuzinho só
tinha casa de capim. A Olegário Maciel era um cerradão danado e na Rua Joaquim
Adjuto Botelho era periferia e era coberta por um espinheiro. Aqui mandava quem
tinha dinheiro. O melhor prefeito foi o Quintino Vargas, mas, os mandões
chamavam ele de tropeiro, mas ele tinha orgulho de ser chamado tropeiro.
Quintino Vargas acabou indo embora para Pirapora. Ele fez tudo para Paracatu .
Ele só consentiu em dar o seu nome na avenida, se colocasse o nome de Travessa
dos Tropeiros, onde ele tinha o armazém. O armazém de Quintino era na esquina
das atuais ruas: Pinheiro Chagas e Floriano Costa.
Aqui em Paracatu tinha o
Saul, ele era jagunço, assaltava as fazendas. Eu tinha muita pena dele, era um
rapaz bom e de família boa. Era da família Alves. Eu conversava com ele e acabou
sendo morto. A mãe dele era cunhada de Dona Xixi do Sr. José Elizio. Mamãe
falava comigo que Dona Beija morou aqui em Paracatu, que ela era muito bonita e
morava com um ouvidor.
|