Meu pai chamava Raul Botelho e minha mãe Augusta Adjuto Botelho. Os meus avós por
parte do pai eram o senhor Fortunato Botelho e a Dona Cândida. Os meus avós por
parte de mãe eram o senhor Rodolfo Adjuto e Dona Joana. O senhor Fortunato veio
de Portugal e o senhor Rodolfo da Espanha. O Fortunato morou primeiro em Araxá e
depois mudou para Paracatu, eles eram fazendeiros. A atual Casa da Cultura era
de meu avô Fortunato, era a casa dele e depois ele doou para que o Estado
construísse a Escola. Onde hoje é a cidade de Cristalina era a fazenda do meu
avô e ele doou para são Sebastião dos Cristais.
O meu avô Rodolfo Adjuto tinha
uma fazenda a 8 léguas de Paracatu, e naquele tempo quando ninguém sonhava com
telefone, ele colocou o telefone ligando a fazenda Conceição com a sua casa aqui
na cidade.
Eu nasci aqui em Paracatu, na Rua das Flores. Passei a viver na
fazenda, depois fui estudar em Uberaba e depois Belo Horizonte e larguei os
estudos para mexer com fazenda. A fazenda era em Cristalina e chamava Fazenda
Piscamba, era uma fazenda de gado e tinha sido do meu avô Fortunato. Os
empregados eram muito bons, tinham casa na fazenda e o fazendeiro pagava prá
eles olharem o gado. De Paracatu a Cristalina eu ia a cavalo e saía prá comprar
gado também a cavalo. Só viajava a cavalo. Gastava-se dois dias de cavalo para
chegar em Cristalina.
Quando eu ia comprar gado, um peão me acompanhava na
viagem. A viagem para comprar gado eu levava de 8 a 10 peões e comprava 800,
900, 1000 bois e cada cabeça custava em média 50$000 (cinqà¼enta mil réis).
Levava um cinturão cheio de dinheiro, naquele tempo não tinha Banco. A compra de
gado era paga na hora, não existia a compra a prazo. A gente viajava por todas
estas estradas e não tinha ladrão naquele tempo. Uma vez esqueci um cinturão
cheio de dinheiro em uma pensão e depois que andei 10 léguas é que notei a falta
do cinturão. Voltei prá trás e lá na pensão o cinturão estava pendurado no
cabide atrás da porta do quarto. De Paracatu a Santa Rita, no Sul de Minas, eu
gastava uns 30 dias com a boiada. Nós andávamos com a boiada de quatro a cinco
léguas por dia. Sem a boiada de oito a dez léguas por dia. Com a boiada a gente
andava a passo e sem a boiada a gente andava em marcha. O cavalo não agà¼entava a
viagem, só utilizávamos o burro. Cada peão recebia dois burros prá viagem. O
cozinheiro ia na frente tocando a tropa de burro e o cargueiro. O cargueiro era
os burros que levavam os mantimentos. Cada burro tinha a sua cangalha onde se
prendia os sacos de couro, um de cada lado, levando os mantimentos. A água era
bebida nos córregos, naquele tempo tinha muitos riachos e com água pura. Chovia
muito naquele tempo, na fazenda tinha pasto e água. Atualmente não existe água e
nem pasto. A chuva acabou e era uma chuva atrás da outra. Nos caminhos tinham as
pousadas que ofereciam o pasto e o rancho para os peões. Cada um levava a sua
rede e dormia só em rede.
Paracatu era uma currutela, vinha aqui apenas quem
tinha que vir. Quando chovia cada rua parecia um ribeirão. Gente estranha era
muito pouca. A cidade era parada, as casas eram simples, não tinha rádio. Só
andava na cidade a pé ou a cavalo. Tinha muito pouco carro. As casas eram feitas
de adobe, umas casas melhores e outras piores. Todo mundo conhecia todo mundo.
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As portas e janelas ficavam abertas, dormia com as portas e janelas abertas.
Cada casa tinha a sua cisterna e prá lavar a roupa era lá na praia do Santana.
As ruas eram calçadas com umas enormes pedras.
Nas casas se usava as lamparinas.
Tinha uma hidroelétrica particular e em algumas casas e na rua tinha uma luzinha
muito fraca. Na praia o povo garimpava com bateia. Quando chovia, entre as
pedras do calçamento ficava uma areia fininha e a molecada apanhava a areia,
batiava e tirava ouro. Aqui tinha muita febre provocada por picada de mosquito.
Pobreza aqui sempre teve. Tinha poucas vendas porque tinha pouca gente. Onde é
hoje a Cà¢mara era o Jóquei Clube. A Casa da Cultura era a residência do meu avô.
A cadeia era aqui onde eu moro, era um prédio bonito de dois andares, em cima
era a Cà¢mara e embaixo era a cadeia. Na cadeia tinha um sino que era tocado
todos os dias as nove horas da noite prá todo mundo recolher. Quem batia o sino
era o carcereiro da cadeia. A prefeitura desmanchou a cadeia e ficou um lote
vazio.
Tinha aqui em Paracatu um cinema, era um prédio muito bonito, dentro dele
tinha a platéia embaixo e contornando, na parte de cima, as carreiras de
camarotes. Vinha firma de teatro de fora, era a única distração que tínhamos.
Veio aqui o Procópio Ferreira, Bibi Ferreira com a peça "Deus lhe pague". Os
filmes eram de Cow-boy com Tom Mix e Buck Jones. A meninada gritava o tempo
todo, torcendo contra os bandidos. O mercado era grande, vinha carro de boi e os
cargueiros e depositavam suas mercadorias no mercado e o povo ia lá comprar. O
centro de Paracatu era onde estava a cadeia, o Jóquei Clube e a Matriz. Depois
do Walsa Hotel tudo era campo, depois da Matriz tudo era campo, depois do
córrego dos meninos tudo era campo. Tinha um relógio público na Matriz e eles
tiraram o relógio na época que o patrimônio consertou a igreja. Aqui tudo era
muito parado e só animava com as festas. Nas festas tinha muita brincadeira,
tinha bebida mas não tinha bebedeira.
Foi a construção de Brasília que trouxe o
progresso para Paracatu. Tinha estrada de carreira de Paracatu para Cristalina e
Patos de Minas. Para ir a cidade de Belo Horizonte, pegava a jardineira aqui e
ia até Patos, gastava um dia e meio. De Patos ia prá Catiara pegar a maria -
fumaça e gastava mais um dia e meio. Podia ir também prá Pirapora no vapor que
pegava no Porto Buriti. Naquele tempo um rapaz só podia namorar uma moça, só
encontrava e conversava. O encontro só era na casa dela ou dele, não namorava na
rua. Os bailes eram animados com sanfona.
Casei em 1939 com Ida Porto Botelho,
casei na Matriz, também fui batizado na Matriz. Fui casado e batizado na Matriz.
Minha esposa ficava em casa costurando prá família e ensinando os filhos. Ela
era a professora dos meninos. Eu ficava prá ganhar dinheiro e ela prá tomar
conta da casa. Ela foi morar depois em Belo Horizonte para os filhos estudarem,
ela ficou lá durante vinte anos para todo os filhos formarem. O pai da Ida era
farmacêutico, aqui tinha poucos médicos, ele tratava do povo, bancava o médico e
ainda dava o remédio, ele chamava senhor Anísio.
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