Meu pai chamava Antônio Oliveira Vilela e minha mãe Maria dos Anjos Roquete. Meu pai
era tropeiro, viajava levando boi, ele trabalhava para os Botelhos, Adjutos e
Pinheiros. Meus pais nasceram em Paracatu. Minha mãe estudou na escola Normal.
Eu nasci na fazenda de Joào Gomes. Quando eu era menino brincava de peteca,
cobra cega, pular corda e biscoitinho queimado. Eu sei que quando descobriram
Paracatu, aqui era uma mata de índio, chamava Paracatu, depois Pira Peixe e
depois Paracatu. A cidade era muito pequena, fechada todinha de arame farpado e
tinha três saídas, uma no Patrimônio na praia do Macaco, outra saída no
Paracatuzinho e uma outra no são Sebastião, era uma porteira pertinho do
cruzeiro da Sá Lotera. A Sá Lotera era uma velha que vivia rezando e o povo ia
para casa dela rezar, ela gostava de festejar a Santa Cruz. Quando ela morreu,
ergueram o cruzeiro em sua homenagem, é o cruzeiro de são Sebastião. A luz aqui
em Paracatu era de lampiào que funcionava com querosene. O poste era de madeira,
colocado no meio da rua e o lampiào dependurado nele.
A doença aqui era brava e
tinha que vacinar todo mundo. A doença de bexiga era uma loucura. Para vacinar
eles davam uns piques, uns furinhos no braço da pessoa com a ponta de uma pena.
Os furinhos formavam uma cruz no braço e eles colocavam a vacina nos
buraquinhos. Aqui em Paracatu tinha cinco igrejas, sendo a primeira a Igreja
Santâ€TMAna, coberta com palha de coco indaiá; a segunda a Nossa Senhora do Amparo,
a terceira a Igreja Abadia, era onde é a praça Firmina Santana, eles enterravam
muita gente no interior desta igreja; a quarta é a Igreja do Rosário e a quinta
a Igreja Matriz. O relógio da Igreja do Rosário ficava na Igreja da Matriz.
Dizem que foi o Samuel Rocha quem deu o relógio. O padre Dom Elizeu queria
vender o relógio e Dudu Rocha, filho de Samuel Rocha, não deixou o padre vender
o relógio. O mercado era perto de onde hoje é a Casa da Cultura. Os cargueiros
levavam para lá o toucinho, manteiga, verduras, arroz e feijão. Era os
cargueiros e os carros de boi quem vinham da roça para vender aqui em Paracatu.
Com o dinheiro das vendas eles levavam pro interior a roupa, a gasolina, o
querosene, o calçado e o remédio. Nos Olhos D'água tinha um minador e ali
formava um poço comunitário de água onde todo mundo ia buscar água.
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Depois eles colocaram um carneiro que abastecia algumas casas. Aqui em Paracatu tinha as
vendas, uma venda vendia de tudo, vendia vassoura, toucinho, rapadura, panela,
sabào, mantimento e remédio.
As mercadorias chegavam pelo porto do Buriti e de
lá prá cá vinha de carro de boi. O querosene e a gasolina vinha nas latas e as
latas dentro dos caixotes. O primeiro carro aqui em Paracatu foi de Vevé, ele
era aviador, era um carro de passeio.
O primeiro caminhão era tocado a manivela
prá ele pegar, era do Pingo o irmão do Vevé. Aqui era uma cidade muito pequena e
uma pobreza danada. O povo era jornaleiro, isto é, trabalhador braçal. Foi
Getúlio quem mudou o nome de jornaleiro para assalariado. O jornaleiro era o
Carapina, o pedreiro e o marceneiro. Lembro que aqui tinha dois partidos, o
Catavento e o Merendinha. O Catavento era o partido do Dr. Joaquim Brochado, e o
Merendinha do Deputado Quintino Vargas. Na época das eleições eles mandavam
buscar o pessoal da roça e o colocava no quartel. O quartel era um lugar que
tinha aqueles tachos cheio de comida, e todo mundo comia a vontade e depois ia
votar. Cada partido tinha o seu quartel e acontecia muita briga na rua. A
polícia aqui era brava, não era esses meninos de hoje, era cada nego forte e
bravo. Quando eles iam fazer prisão na roça eles iam a cavalo. O pessoal da
cidade tinha um respeito danado pela polícia. Naquele tempo o ouro era fácil,
era tirado na pá na praia do Santana.
Aqui na rua Goiás a meninada apanhava ouro
entre as pedras. Quando uma moça e um rapaz iam casar na igreja, eles saíam a pé
da casa deles, o noivo e noiva na frente e atrás ia uma procissão de gente, na
volta era a mesma coisa. A noiva ia de braço dado com o noivo na frente da
procissão. O enterro era acompanhado pela banda de música que ia tocando marcha
fúnebre. Na morte do pobre não tinha banda de música, só no enterro dos ricos.
No casamento dos ricos a banda de música também acompanhava os noivos, na ida e
na volta.
Aqui em Paracatu tinha muitas festas com procissão, banda e tudo, era
as festas do Senhor Morto, são Benedito, Santo Antônio, Nossa Senhora da Abadia
e muitos outros, o povo todo ia, ninguém deixava de ir. A maior alegria de minha
vida foi o meu casamento e minha maior tristeza foi a morte da minha
mulher.
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