O meu pai era severo, muito severo mesmo. Eu era muito presa e todo mundo vivia dentro de casa. A gente só saía acompanhado do papai e da mamãe. Para ir para a escola, todos os irmãos iam e voltavam juntos.
Eu só fui conversar com um menino quando eu tinha 13 anos e foi lá na Escola Normal. Formei em magistério na única escola
que tinha aqui em Paracatu que era a Escola Normal.
O que mais me marcou em
Paracatu era as enxurradas no tempo de chuva, parecia que a rua vivia um Rio.
Aqui também tinha muita serenata e na noite de lua, os brinquedos de roda, em
frente de casa com as mães olhando as crianças brincando. Conforme a gente ia
crescendo, passamos a ir para as casas das colegas para brincar de fazer
cozinhados, cada moça levava um ingrediente e fazíamos a comida embaixo das
mangueiras. Os quintais eram grandes, tinha muitas árvores como: jabuticabeiras,
laranjeiras, goiabeiras, caramboleira, mangueira e outras. Plantava muita
verdura nos quintais, como alface, abóbora, cheiro verde, quiabo, jiló, chuchu.
O fogão era de lenha e a comida sempre estava quentinha. Em todas as casas fazia doce de marmelada, goiabada, laranja da terra, doce de leite fino, doce de ovos, pé de moleque. Toda mulher sabia fazer de tudo. A moça era preparada para ser
mãe de família e dona de casa.
Com trinta e poucos anos fui para o convento das
irmãs carmelitas. O convento era em casa velha que as irmãs tinham comprado do
José Botelho.
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O convento funcionou muitos anos nesta casa e depois ela foi
demolida e construíram o colégio Dom Elizeu. Fiquei no convento, durante onze
anos e saí com quarenta e cinco anos. Voltando os olhos para o passado, ficamos
tristes com o desaparecimento das igrejas do Santana, Amparo e Abadia. Inúmeros
sobradões também foram destruídos. Só na Rua Goiás, três grandes casarões
desapareceram. As ruas eram calçadas de pedra e acabaram com tudo.
A vida política aqui em Paracatu era brava, um partido não podia ouvir nem falar do outro. No interior das casas a água era de cisterna, a privada no quintal, luz de lampião, lamparina e vela; o fogão era de lenha, o piso era de barro, a
parede de adobe. As ruas eram escura e também buscava água na praia ou nos Olhos d'água.
As festas também eram muito bonitas, sendo que a do Divino Espírito Santo aparecia toda a corte real, com Imperador, Imperatriz, Príncipes e
Princesas, era o próprio povo de Paracatu que fantasiava imitando a corte. As
procissões eram animadíssimas, todo mundo acompanhava a procissão. Durante toda
novena tinha leilão.
Na festa de são Benedito tinha congado, tapuiada, capoeira,
quadrilha e caretagem. Aqui em Paracatu tinha muitas serenatas nas noites de
luar. Saía um grupo com violão, sanfona, bandolim e gaita. O grupo parava
embaixo da janela e cantava lindas e maravilhosas canções. Os grupos de serestas
eram formados de casais, acompanhados dos filhos.
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