Meu pai Manoel Antônio de Oliveira e a mamãe Carlota Ferreira Gomes. Ele era
vaqueiro de Vivi Neiva e depois largou a vaqueirice. Ele passou a trabalhar
tirando palha de coqueiro pra vender pra trançadeira de chapéu. Aqui em são
Domingos, todo mundo trançava chapéu. Ele também garimpava ouro no Córrego são
Domingos. Ele faiscava e plantava roça.
Minha mãe ajudava o papai, ela trançava
chapéu. Aqui em são Domingos tinha umas casas grandes e desapareceu tudo. Eu
lembro da casa grande de meus avós, era um casarão e desapareceu, ela era onde é
agora o grupo escolar. Aqui não tinha ruas, não tinha ponte, não tinha estrada,
só tinha uns caminhos.
Muito tempo passado, os escravos trabalharam muito aqui,
foi aqui que os bandeirantes chegaram. Eles abarrancaram aqui primeiro. Aqui
tinha a casa do senhor e as casas dos escravos. até hoje a gente encontra os
restos das casas, das senzalas e muito material utilizado pelos escravos, como
ferramentas e cachimbo. Os cachimbos que a gente encontra, tem até a catinga do
fumo dentro.
O cemitério dos escravos era onde é agora a casa da Joaninha. Ela
construiu a casa dela em cima do cemitério dos escravos. Tudo acabou e quando eu
era menino, aqui no são Domingos não tinha nada, só umas casas ali e outra ali e
aqui só chegava a pé. Quando uma pessoa ficava doente era levada no bangüê. O
bangüê era um pau comprido e amarrava nele um pano que ficava igual uma rede.
Nas pontas do pau ficava as pessoas que carregavam o doente.
As casas aqui eram
feitas de madeira, adobe e telha colonial comum. Primeiro fazia o esteio de
madeira nas esquinas e os vão enchia de adobe. O adobe era um tipo de tijolo, só
que não era queimado, ele era cru. O adobe tinha uns 20 cm de altura, 30 cm de
largura e 30 cm de comprimento. Pegava o barro, fazia o adobe e deixava secar e
depois de seco fazia a parede. Pra fazer as telhas, a gente fazia a forma de
madeira. A forma chamava guarlapo. Colocava o barro em cima da forma e amassava
o barro com a foice. Quando o barro estava seco, puxava o guarlapo e deixava a
telha acabar de secar no sol e depois punha no forno pra queimar. Só depois de
queimada é que ela agüentava chuva, sem queimar, vazava água. Era chamada de
telha colonial comum, era comum porque era feita à mão. Aqui no são Domingos
tinha uma igreja feita pelos escravos e ela acabou caindo. O bispo esteve aqui e
autorizou acabar de desmanchar.
Na igreja tinha muitas santas e santos de
madeira, era: são Domingos, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora do Rosário,
Nossa Senhora de Santana. Os padres levaram tudo porque o povo começou a roubar.
Eles roubaram a Nossa Senhora do Rosário que está lá em Brasília, na casa de um
deputado federal. Os santos nunca mais voltaram, colocaram no lugar outros
santos de barro. O são Domingos que está aqui é de madeira, mas não é o
original. O cemitério era em volta da igreja, mas passaram o trator e acabou
tudo. Aqui em são Domingos não tinha água encanada, nem luz. O banho era de
bacia ou no córrego e buscava água na lata.
A gente estudava lá em Paracatu, ia
a pé, levantava de manhà e ia lá pro grupo. Levantava às 6 horas e ia correndo
até chegar. Tinha dia que a gente ficava nos morros comendo coringão e nem ia
pra aula. A gente nadava muito no córrego, a infà¢ncia era mais no córrego são
Domingos. Na época o córrego tinha muita água e tinha o poção Santos Reis. No
poção Santos Reis a gente não ia porque lá já tinha morrido muita gente e a
meninada tinha medo de ir lá.
Aqui em são Domingos sempre existiu a "caretagem"
que é uma dança na época de são João. não sabemos mais a sua origem, só sabemos
que ela é muito antiga. são 24 dançantes, todos mascarados e a roupa é
fantasiada. Forma um casal, um homem vestido de homem e um homem vestido de
mulher. Durante a dança todo mundo mistura e no final todo mundo com o seu par.
Toca o violão, caixa, pandeiro e a sanfona. A caretagem vai de casa em casa aqui
no são Domingos, todo mundo dançando. Só sai do são Domingos a pedido. Esta
dança veio desde a escravatura.
A gente canta assim:
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São João se bem soubesse
Quanto era o vosso Dia
Descia do céu à terra
Com prazer e alegria.
Arê,
Arê, Areruá
Arê,
Arê, Areruá
não dei conta da bandeira
Derradeiro os capitão.
É uma dança pra louvar o dia de são João. A dança começa as 7 horas do dia 23 de junho
e dança até o almoço do dia 24 de junho. Quando acaba a dança, todo mundo almoça
junto, aqui em casa.
Eu comecei a vida garimpando, tocando roça, trabalhando
duro. No garimpo, por dia eu tirava 8 vintém, 10 vintém. Uma grama é igual a 4
vintém. Eu vendia o ouro pro Senhor Agenor e José Ferreira que eram compadres.
Mais tarde passei a fazer rapadura. Moía a cana, tirava a garapa e colocava a
guarapa nos tachos. Colocava fogo embaixo do tacho e a garapa ia diminuindo até
dar ponto e quando dava o ponto tirava e punha na maceira e batia até dar
novamente o ponto, depois, colocava na forma e esperava secar. Isto é a rapadura
simples.
Fazia também a rapadura misturada com mamão e leite. Colocava o mamão e
o leite depois que a garapa virava melado. Mais tarde passei a fazer pinga, quem
me ensinou foi um velho chamado Aristeu. O meu alambique veio de longe para o
senhor Juca Teixeira, ele morreu e deixou para os filhos e eles venderam pro
Satu Lopes e ele esmoreceu de continuar a fabricar pinga e eu comprei dele. A
melhor cana é a java. Primeiro a gente prepara a fermentação. Compra pão cru e
coloca na gamela, rapa a rapadura e joga em cima do pão cru e colocava no
sereno, sendo que no outro dia aparece pintado de azedo. Moe o milho e joga em
cima com um pouco de garapa e deixa no sol. No outro dia mais garapa, no outro
dia mais garapa e depois de uns três dias está fervendo e então coloca no cocho
e moe mais cana em cima, vai moendo até ele ficar bem alterado. Depois de uns
três dias, coloca garapa até encher o cocho e em um dia, o fermento para de
ferver e a espuma abaixa. Joga tudo na panela do alambique e coloca fogo. Quando
tiver fervendo, coloca o capelo e conserva o fogo. O vapor sobe e sai por um
cano do capelo e cai numa vasilha e já é a cachaça.
Eu fazia 100 litros por dia
lambicada. Aqui em são Domingos possui muito caso misterioso. Quando eu era
rapazinho fui comer doce na casa da comadre Martinha e ao voltar, perto da
árvore tamboril, debaixo de uma pedra saiu um fogo danado com uns dois metros de
altura e depois foi baixando e entrou novamente embaixo da pedra. Saí correndo e
só parei quando cheguei em casa. Contei pro papai o que tinha ocorrido e então
ele falou que sempre que voltava da cidade na boca da noite, encontrava com um
homem sem cabeça, só do ombro para baixo e no mesmo lugar do fogo.
Um dia
tocando roça no terreno da Sá Binú, passei embaixo de uma árvore. Ao passar a
árvore balançou toda e as folhas caíram só que não via as folhas caindo, só
escutava o barulho das folhas caindo no chão. No lugar daquela árvore existia
uma tapera dos escravos e ali tinha um poço e eles jogavam ouro no poço e depois
tamparam e plantaram a árvore.
Na Semana Santa, um grupo de umas 15 pessoas
vinham da cidade. Ao chegarem perto da ponte escutaram o barulho de uma boiada
estourada, quebrando tudo. O barulho foi chegando, chegando e passou pelo grupo
e ninguém via nada e nem um pau balançava, só escutava o barulho. Todo mundo
saiu correndo de medo. Um dia também, eu estava plantando roça no Pina e ao
turvar, uma sombra passou ao meu lado, eu virei e a sombra desapareceu. A sombra
era do cunhado Firmino que já tinha morrido. Ele dizia que na terra achou, na
terra deixava. Ele enterrou 25 garrafões de ouro naquele lugar.
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