Domingos Xavier da Silva era o nome de meu pai. A minha mãe chamava
Zulmira Rabelo de Souza. Eles trabalhavam na fazenda Santo Aurélio de Josino
Campos Valadares. O Josino era um homem muito rico e teve uma morte horrível. Ao
chegar na fazenda, o seu carro caiu no açude, pois, a sua esposa queria tirar um
presente do bolso dele e provocou o acidente.
Morreram o Josino, sua esposa e
uma sobrinha. Os meus pais morreram de pneumonia, naquele tempo não tinha
remédio. Fui criado pelos meus avós maternos, eles chamavam Aguinelo Rabelo de
Souza e Izabel de Franca Pinheiro. Eles moravam também lá na fazenda Santo
Aurélio.
Quando meu pai morreu eu tinha quatro anos. Com 9 anos de idade eu vim
morar em Paracatu, na casa de Jovita Pinheiro, na Rua Manoel Caetano.
Antigamente as casas não tinham número e a cidade era muito pequena. Fui então estudar no Afonso Arinos e fiquei lá até completar o 4ºano. Naquele tempo a
gente brincava de boneca e cozinhadinho. Cada Domingo ia para a casa de uma
amiga para brincar de cozinhadinho. As bonecas eram feitas de pano por Maria
Luiza, conhecida por Orobó. A Orobó era uma preta velha, muda e magrinha. Ela
sabia fazer uma boneca linda e toda de pano. Cada boneca que ela fazia era de
uma perfeição absoluta. A boneca tinha cabelo, olhinhos, narizinho, boca. O
rosto era perfeito e as mãozinhas também.
Cada boneca custava $200 ( duzentos
reis). A Orobó morreu muito velha em Patos de Minas aos cuidados da Jovita
Pinheiro. Ela recebeu todos os cuidados e todo conforto possível. Aqui em
Paracatu, tinha muita igreja bonita, mas, destruíram todas. Existia a Igreja do
Santana, Abadia e Amparo. A Igreja do Amparo era no Cristo Rei, a Abadia era na
Praça Firmina Santana, a Igreja do Santana lá no Santana, no mesmo ligar que
construíram aquela pequenininha que está lá agora. Das três Igrejas, a mais
bonita era a do Santana, tinha muita coisa bonita e de valor lá dentro, mas tudo
desapareceu. No lugar do Colégio das irmãs, tinha um grande casarão muito
bonito, era uma casa muito grande.
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Lembro da família de Antônio Jordão de
Carvalho que morou lá. A primeira pessoa a ter uma televisão aqui em Paracatu
foi o pessoal daqui de casa e depois Rogério Pereira Gonçalves. A gente quase
não via a imagem, ficava quase tudo invisível e só escutava um sonzinho. Mas
todo mundo ficava ali diante do aparelho.
Lembro que esta rua onde moro era toda
de pedra. O calçamento de Paracatu era todo de pedra e era uma cidade muito
pequenina. A vida era muito difícil, mas todo mundo trabalhava e tinha a sua
vida. não existia tanto pobre como tem hoje. A vida não oferecia tanto conforto,
mas o pessoal era mais amigo. O homem público que mais gostei foi o prefeito
Quintino Vargas. Foi ele quem colocou luz, água aqui em Paracatu. não foi ele
que mandou tirar as pedras do calçamento. As pedras começaram a ser tiradas na
época do prefeito Wladimir e depois os outros continuaram.
O Walter Neiva foi um
ótimo prefeito, foi ele que mandou construir a prefeitura, tirou os bequinhos e
abriu muitas ruas. A educação era muito mais enérgica do que hoje. Quem saía do
4ºano, parecia que tinha o curso superior, sabia muito mais do que hoje. Hoje
quem está estudando no ginásio não sabe nada. Naquele tempo tinha muito castigo
que obrigava o aluno a estudar. O aluno tinha que saber tudo direitinho. Os
professores cobravam muito, mas o aluno saía sabendo. Tinha os seguintes
castigos: prisão na secretaria, ficar de pé na frente da sala, ir para a
Diretoria. O pior era quando a gente era mandado lá para a diretoria.
Fui batizada lá na roça com o nome de Maria Joana Xavier e registrada como Maria Xavier, perdeu o Joana. A gente nascia na roça e pai da gente trazia escrito em um papelzinho o nome e a data do nascimento, mas, lá no cartório perdia o papel
e os dados saíam todos truncados.
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