A minha mãe, Rita Dantas Barbosa, morava no Arraial D'Angola. não conheci meu pai, sou filha natural. Mamãe tinha quatro filhos contando comigo. Ela trabalhava para as famílias, lavando roupa. Quando mamãe morreu, a minha irmà Benedita acabou de criar todos nós.
Todo mundo morava junto. A Benedita para sustentar a
casa, tirava ouro no córrego, lavava roupa, buscava lenha para vender e também
apanhava esterco para vender lá na cidade. A Benedita cuidava da Joana, do
Francisco e de mim. Todos já morreram, só fiquei eu. Meu povo morreu todo e fico
aborrecida com isto, não posso mais sair.
Quando eu era criança gostava de
brincar de roda. Lembro que um dia estava na roda, então peguei uma peneira e
coloquei na cabeça e todo mundo gritou que eu não cresceria mais, por isso eu
fiquei deste tamanho, não cresci mais. Brincava também de berlingue, e era
assim, formava uma roda de criança, quem estava no meio da roda fazia uma
pergunta e quem não sabia responder substituía aquele que estava no centro. Fui
crescendo, então fui para escola no Grupo Afonso Arinos, minha professora foi
Altina de Paula. Estudei até o 4ºano primário.
A gente era muito pobre e tinha
que trabalhar. Fui trabalhar fazendo doce, socar arroz no pilão nas casas para
tirar as cascas, torrando café para a Cutinha, mãe do Deiró. O doce eu vendia
aqui na porta. Era doce de mamão, goiaba, tamarindo, leite e ovos. Para fazer o
doce de mamão, eu pegava o mamão ralado, punha no tacho. Misturava no tacho o
mamão ralado com o leite e açúcar. Ascendia o fogo e ia mexendo; na hora em que
aparecia o fundo do tacho estava bom de tirar do fogo. Tirava do tacho e ia
estendendo no tabuleiro de madeira. Quando esfriava, cortava em pedaço e punha
na cesta para vender.
O doce de tamarindo era muito gostoso. Apanhava o
tamarindo no pé, descascava, rapava e tirava a semente. A semente era colocada
de molho em uma vasilha com água. A massa do tamarindo punha no tacho com água e
açúcar e punha o tacho no fogo. Quando a água do tacho secava, colocava a água
da semente e quando esta água secava, tirava do fogo e punha a massa no
tabuleiro. Quando estava bem fria, cortava em pedaço para vender.
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Lavei muita roupa para Dona Dejê e Dona Júlia. A roupa era lavada lá na praia. Punha a água na bacia, punha a roupa dentro da bacia e ia esfregando a roupa com sabão.
Depois estendia a roupa e quando estava seca, pegava tudo, batia a roupa na
pedra, tornava colocar a roupa na bacia, passava sabão, esfregava e punha para
coarar. Quando ia secando, a gente ia jogando água e depois batia novamente,
enxaguava, torcia e estendia no varal para secar. A bacia era de folha de
alumínio, o sabão era de barra e vinha com a roupa. O córrego tinha uma água
limpinha. Enquanto a gente esperava a roupa secar, nós íamos tomar banho e
brincar na água com a roupa que a gente estava.
Naquele tempo o córrego tinha
muita água, parecia até um rio. Eu buscava também esterco de cavalo para vender.
O banho só era na praia, ninguém tomava banho em casa. Quando tinha que tomar
banho em casa, era dentro da bacia. Punha água quente na bacia, misturava com
água fria, sentava na bacia e ia molhando o corpo. A água para beber a gente
buscava na praia. Lá fazia a cacimba. A cacimba era um buraco na areia e quando
o buraco dava água a gente ia tirando a água suja até aparecer a água limpa.
Pegava a água e enchia a lata, punha a lata na cabeça, levava para casa e lá
despejava a água no pote de barro .
Eu não casei, moro sozinha sem ninguém nesta
casa. Aqui em Paracatu nunca ninguém me tratou mal por eu ser preta. Sou
católica e quando era menina ia na Matriz, na Abadia, Nossa Senhora Aparecida e
na Igreja do Santana. Eu rezo as minhas orações de cor, o Pai Nosso e Ave Maria
. Quando os olhos não dão água eu leio a Bíblia.
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