Martinho Alves Campos era o nome de meu pai. Ele era pedreiro, nasceu e foi criado aqui em Paracatu. A minha mãe, dona Laudelina Peres de Lima, fazia o
serviço doméstico e costurava para fora.
Nós morávamos no largo da Abadia. Eu
fazia todo o serviço da casa, buscava lenha no mato, lavava roupa para os
outros, fazia enxerga, colchão e roupa para as pessoas. Também, trabalhei muito
tirando ouro na praia.
Naquele tempo não existia a Avenida Olegário Maciel, era
um largo repleto de mato. A boiada passava pelo largo. As minhas costuras eram
feitas na máquina de costura de mão. Eu mesma comprei a máquina com o dinheiro
do meu trabalho e até hoje costuro nela. A água para beber eu ia buscar lá nos
olhos d'água.
Tudo era muito difícil, para lavar a roupa a gente punha a roupa
suja na bacia , colocava a bacia na cabeça e ia andando até lá na praia e por lá
ficava o dia inteirinho só lavando roupa. A enxerga que eu fazia era diretamente
para os comerciantes, eles me davam o pano e a linha pagando pelo serviço de
costura.
A enxerga é aquela manta acolchoada que coloca no lombo do cavalo para
depois colocar a sela. A gente cozinhava no fogão de lenha, utilizando aquelas
panelas de ferro. A comida era arroz, feijão carne de gado. Comia também frango
e peixe. Todos os dias tinha que arrear as panelas com bucha de milho ou
sambaíba. O sabão a gente fazia em casa, era o sabão de coada. Comprava o sebo,
a soda e cozinhava tudo no tacho. A gente fazia o sabão para o gasto. A vela eu
fazia para o gasto e para vender. Vendia muita vela, porque não tinha luz
elétrica, o pessoal usava a lamparina de querosene e a vela.
Para o banho, a
gente esquentava água e punha na bacia e depois sentava dentro dela e se lavava.
A privada era fora de casa, era um buraco lá no fundo do quintal, cercado com
madeira. Dentro de casa tinha o urinol, para ser usado durante a noite e ficava
embaixo da cama. De manhã, quando acordava, jogava o que estava no urinol fora,
lavava o urinol e tornava colocá-lo embaixo da cama. Naquele tempo não tinha
papel higiênico, a gente utilizava o jornal, trapo de pano e o capim. O meu
marido era comerciante, vendia cereais, ele comprava e vendia. Todo o comércio
dele era feito no lombo do cavalo.
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Quando eles abriram a Quintino Vargas, só
tinha dois moradores; que eram o Antônio Caetano e nós. Eu gostava muito de
brincar de boneca. Aqui em Paracatu tinha a Orobó que fazia as bonecas e a gente
comprava. A Orobó era uma preta velha, o que ela falava a gente não entendia
nada. Quem não podia comprar boneca na loja, comprava a boneca do Orobó. Aqui em
Paracatu acontecia muita coisa esquisita. Na Manoel Caetano a gente escutava as
passadas dos cavalos e não via nenhum cavalo. Na subida do alto do córrego a
gente escutava o barulho do carro de boi rangendo e não tinha carro de boi.
Durante a noite, a gente escutava porta batendo dentro de casa, mas a porta estava fechada. Escutava também uma pessoa ascendendo fogo, mexendo na chaleira, pondo água para ferver e não tinha nada acontecendo. Escutava também alguém
pegando o frango, matando e não via nada. Uma moça que morava na Manoel Caetano,
estava na janela durante a noite e viu uma procissão passando, acabou de passar,
a vela transformou em um osso. Esta moça chamava Maria. Eu estudei até o 4ºano,
mas não formei.
Estudei no Grupo Escolar Afonso Arinos. Dona Tunica e Dona
Aurora eram minhas professoras. O dia mais feliz de minha vida foi quando eu
casei e a maior tristeza foi a morte de papai e mamãe.
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