Meu nome é José de Souza, nasci em 1928, no dia 29 de novembro. O meu pai chamava
Joaquim José de Souza e minha mãe Antônia Moreira de Souza. O meu pai era
fazendeiro, dono da fazenda são Marcos, no lugar conhecido como são Joaquim, no
município de Cristalina. Nasci na Fazenda são Marcos. Era uma fazenda de criar
gado, tinha um engenho de moer cana , tocado a boi. Na fazenda nós fazíamos
rapadura que era vendida em Cristalina levada no carro de boi. Naquele tempo não
tinha rodovia e sim carreira.
Eu só tenho recordações agradáveis da juventude
passada na fazenda, principalmente de um grande rego d'água que passava dentro
da fazenda. Era onde a criançada brincava e tomava banho. Meu pai morreu quando
eu tinha 14 anos e fiquei com minha mãe e outros nove irmãos menores. Assumi a
fazenda para dar conta de criar todos. não tinha esta rodovia ligando Brasília;
Brasília não existia.
De Paracatu a Cristalina era uma estrada carreira. Quando
fizeram Brasília e construíram esta estrada, a fizeram seguindo a mesma estrada
carreira. Da estrada carreira passaram para uma estrada de chão batido e depois
o asfalto. Quando era de chão batido já tinha ônibus ligando Paracatu a
Cristalina. Eu ia da fazenda à rodovia no cavalo, largava a montaria na fazenda
Casa Branca e então pegava o ônibus. Estudei aqui em Paracatu na Escola Estadual
Afonso Arinos de 1937 a 1941. Na cidade de Paracatu, onde não era calçada de
pedra era um terrão vermelho com uma poeira danada. Existia calçamento de pedra
na: antiga Rua da Praça, Rua Goiás, Rua do a'vila, Rua das Flores, Rua Manoel
Caetano e Rua da Abadia. Estas ruas formavam o centro da cidade. As ruas de chão
batido eram: Pinheiro Chagas, Patos, Prado, o resto era tudo viela. A rua das
Flores ia até no Santana.
No Santana tinha a Igreja do Santana, era um igrejão
antigo e já estava em ruína, já estava caindo toda. Onde é o Clube União e o
Hospital Santa Lúcia era mato puro, um capoeirão, era pasto de aluguel. A Vila
Cruvinel era o pasto do Sr. Antenor Cruvinel. O bairro Bela Vista e o Amoreira
era um capoeirão danado. Do lado de cima da Rua do Prado, tudo era mato. Onde é
o Posto Moirão, Itamaraty, Vila Mariana, tudo era pasto do Sr. Raul Botelho, era
uma fazenda pertencente aos Botelho. A luz elétrica era gerada no ribeirão
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Batalha e era uma luzinha fraquinha, sendo que na época da seca piorava, quase
apagava.
A água era tirada da cisterna no saril, quem era rico, tirava a água de
cisterna com bomba manual. Na cidade não tinha esgoto, cada casa tinha uma
fossa. Aqui, na questão de saúde, só existia a Santa Casa, que funcionava onde é
a atual Rua Rio Grande do Sul. Os médicos eram o Dr. Adelmar Neiva ( Dr. Maneco
), Dr. Candido Ulhoa e Dr. Soriano. Quando eu tive que operar de fimose, foi lá
na casa de minha tia Dulinha, deitado em cima da mesa da sala. Quando eu era
mulecote, atravessava o capoeirão e ia tomar banho na Gruta de Vênus. A gruta
iniciava no começo do Morro do Ouro e ia aprofundando para dentro da terra uns
200 metros. Lá dentro era um paredão de pedra bruta formando um beco, era um
paredão de pedra no chão, nos lados e no teto.
A gruta ia terminar onde hoje é a
RPM. Lá no término da gruta, caía uma água branquinha, clara e formava um grande
poço, mas , um poço grande mesmo. Em volta do poço era uma mata virgem e muita
pedra, chegava a ser escuro e era um lugar lindo e maravilhoso. A RPM demoliu
tudo.
Aqui em Paracatu, a garotada tomava banho no Córrego Pobre e no Córrego
dos meninos. A água dos córregos era limpinha e tinha muita água, era córrego,
mas parecia rio.
No Córrego Pobre tinha o poção Paulista e no Córrego rico,
tinha a praia do Vigário, Matinho e Macaco. Os Garimpeiros não gostavam que a
meninada tomasse banho nos córregos, porque sujava água e levantava areia e ouro
desaparecia. Onde eles estavam garimpando, não deixavam a gente brincar no
córrego. O centro de Paracatu era a Rua Goiás e a Praça Cristo Rei. Onde é a
farmácia do Dedé era o Banco do Estado de Minas Gerais . Onde é a Caixa
econômica Federal era o Banco Mercantil. Onde é hoje a Sociedade Comercial era a
loja de Olímpio Gonzaga, era uma casa grande e tinha também o Café do Aristides.
Em Paracatu não tinha carro, a circulação era feita de carroça, charrete, cavalo
e carro de boi. Poucas eram as bicicletas e era só para quem tinha dinheiro. O
carro de boi circulava por toda a cidade.
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