Não lembro em que ano eu nasci, tenho uns 88, 89 anos mais ou menos. O meu pai
chamava Cecilio e minha mãe Maria Costa Pinheiro, lembro que minha avó chamava
Jusefa Pinheiro, não lembro de mais nenhum nome. Nasci em Paracatu, aqui no são
Domingos e ainda muito pequeno fui viver na casa de Nonô de Oliveira e Manuela
de Oliveira Melo, foram eles que me criaram.
Eu era molecote, tirava leite, moía
cana, fazia rapadura e pinga, lá na fazenda deles. Um dia soquei o pé na popa
deles e vim embora, fugi. Fui no quarto deles, levantei a coberta e escutei que
eles estavam roncando. Peguei um queijo bom e uma rapadura, era rapadura de uns
quatro quilos e rompi a pé. Quando eles levantaram de madrugada eu já tinha
fugido. Quando ele assustou eu já estava longe.
Fui prá Garrincha. Lá o dono
perguntou quem eu era, falei que era gente. Perguntou se eu roubava, se eu tinha
matado alguém. Falei que tinha largado os meus criadores, larguei porque queria
voltar prá minha família. Trabalhei na fazenda do Garrincha, o Niquinho. Quando
ele tirava leite de uma vaca, eu tirava de duas. Um dia, quando o Sr. Niquinho
saiu com as meninas, arrumei a trouxinha, joguei mocotó na banguela e vim
embora. Travessei o fiscal goiano a pé, tudo a pé e depois travessei o fiscal
mineiro. O padrasto saiu me procurando mas o fiscal mineiro não deixou ele
passar prá me procurar. Eu fiquei no Niquinho um ano mais ou menos.
Eles gostavam muito de mim, mas fugi, dava na cabeça. Gastei uns dois dias a pé prá
chegar em Paracatu e vim para são Domingos. Nunca mais saí daqui. Ganhei a vida
trabalhando, tirando ouro na bateia, tirava ouro em todo lugar, no são Domingos
e no Córrego Rico. Tirava dois, três, quatro vinténs por dia. O vintém era o
peso de um palito de fósforo. Vivia com o ouro. Aqui encontrei minha mãe e meus
irmãos. Casei com Damiana Coelho Guimarães, tive três filhas: Rita, Ana e finada
Domingas e dois filhos: Antônio e finado Jaime. Todos estão vivos só que minha
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mulher morreu há uns 20 anos.
A época mais triste foi a perda de minha mulher.
não arrumei outra mulher, você sabe, uma mulher mais ativa te larga, te leva na
lei, você sabe como é. A minha melhor alegria é uma festa sem briga, sou
festeiro. Sou católico, acompanhei muito a "Folia de Reis", eu era matuleiro,
levava a comida e as coisas deles, durante muitos anos. Depois que Manelope
morreu, acabou tudo, saía 25 de dezembro e voltava 25 de janeiro.
Nunca fui perseguido pelo povo por ser preto, eu só fugia donde eu estava. Na folia eu ia
a cavalo na frente, muito na frente, levando tudo e os outros vinham a pé. O meu
maior sonho é ganhar dinheiro prá comer, beber e vestir. Hoje eu vivo com meu
filho Antônio, cuidando da roça aqui no quintal. Agora ele esta na bóia-fria
colhendo feijão e eu fico aqui olhando a casinha e colho mandioca, milho. Prá
criar a família eu tirava da terra, daqui do quintal, abóbora, milho, mandioca e
tirava ouro na praia. Tirava a terra com pá, colocava na bateia e batiava,
jogava o cascalho fora e o ouro ia ficando.
Tirava o ouro da bateia, enrolava
num pedaço de papel e vendia para o Sr. Tidas e muitos outros que compravam ouro
aqui em Paracatu. Com o ouro a gente podia comer melhor. A carne antiga era boa,
hoje a carne é muito ruim, ela é mais dura. Aqui tinha muita caça, matava tatu,
melete e veado. O melete era um cachorro com focinho grande parecendo um
tamanduá.
A gente pescava muito e tirava muito peixe no são Domingos.
Hoje não
tem nada. Naquele tempo não tinha água e nem luz nas casas. A água a gente
trazia do são Domingos nos potes ou cabaças e a noite a gente clareava com
lamparina de querosene, óleo ou azeite. Era mais fácil comer, plantava no
quintal, caçava no mato e pescava no rio. Aqui em Paracatu eu sou muito
respeitado e nunca ninguém aprontou atrevimento comigo.
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