Benvindo Manoel Teixeira era o meu pai e dona Teotônia Campos Teixeira
era minha mãe. O meu pai foi funcionário da Prefeitura e depois fazendeiro, foi
na Prefeitura o secretário, tesoureiro, contador e trabalhou no cadastro. A
fazenda dele era a são Sebastião, distante de Paracatu seis quilà´metros.
Antigamente a cidade de Paracatu era um lugar de pouco dinheiro, a vida era
monótona e todo mundo era amigo. Na mocidade a gente namorava, ia passear na
confeitaria. Tinha a confeitaria de Aristides Rainha, onde vendia doce,
biscoito, doce de leite, de ovos. A gente levava a namorada para comer doce,
gemada e leite com café. Nós bebíamos também a gemada. O senhor Aristides
treinou muita gente para fazer doce e depois ele passou a confeitaria para os
parentes: Jorgina e Argentina.
Naquele tempo o relógio era na Matriz, na Igreja
Matriz e no Governo de Pererinha (Afrà¢nio Salustiano Pereira) passou o relógio
para a igreja do Rosário. Na Matriz, o relógio ficava em uma casinha de metal lá
em cima da torre. O relógio dentro da caixa de metal, a caixa parecia até um
oratório. Passaram a dizer que a pancada dele deslocava as telhas e acabaram
tirando o relógio de lá. A Avenida Olegário Maciel era uma estrada de boiadeiro,
onde passava carro de boi. Foi o prefeito Quintino Vargas quem abriu a avenida.
Em Paracatu tinha muita pobreza, eles vendiam lenha na cabeça, lavavam roupa,
vendiam mangaba e tiravam ouro no córrego. Eram pessoas humildes e durante a
noite eles ficavam cantando alto lá na Tainha, hoje é o bairro Amoreira. Eles
moravam em choça de capim e faziam adobe para vender. Nos pobres de Paracatu
tinha mais negro, mas tinha gente clara, mas o maior número era de negro. Eles
faziam festas nos terreiros. Na rua era tudo escuro, só quando tinha lua é que
clareava. Nas casas tinham os lampiões de querosene e carbureto. A gente
brincava de pelada no Largo do Prado e no Tanque do Nerva. Quando queimava Judas
lá no Sant'Ana a gente ia, mas quando acabava de estourar o Judas, era a hora da
briga.
Uma época tive que sair correndo do Sant'Ana até perto da atual Cà¢mara
que na época era o Jóquei Clube. Lá no Sant'Ana o pessoal do Largo da Abadia
apanhava e quando eles vinham aqui no Largo eles apanhavam também. Era tapa e
murro, quebrava nariz e muita pedrada, eu tenho até uma marca de pedrada daquele
tempo. A gente freqüentava a Igreja Católica e na Igreja tinha a liga infantil
que preparava para a 1ª comunhão e estudava o catecismo. Quem estava na liga dos
iniciantes usava fita verde, os adultos, fitas amarelas e os diretores e chefes,
a fita vermelha. Tudo era na Igreja Matriz. A Igreja do Rosário só abria nas
festas de são Benedito, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora do Amparo.
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A meninada tirava ouro entre as pedras da rua e nos buracos que ajuntava água os
meninos bateavam, dava até pepita.
O pessoal da roça trazia para vender aqui a
laranja, banana, rapadura e cereais no cargueiro. O cargueiro era o cavalo com
uma cangalha e duas bruacas (caixas de couro com tampa) e vendiam de porta em
porta. O leite vinha nas latas. Nos arreios tinha um gancho de pegar as latas.
No arreio do cavaleiro é que tinha o gancho. Era um gancho de pegar as duas
latas com 30 litros para baixo. Tinha época que dava febre, a maleita, a malária
e a tuberculose. Quando uma pessoa ficava tuberculosa era um comentário danado e
a pessoa era discriminada.
Na cadeia tinha um sino, quando prendia uma pessoa o
sino batia para chamar o carcereiro. O sino também batia para chamar os soldados
e só tinha uns oito soldados.
Os córregos eram uma beleza. No Córrego Pobre a
gente ficava o dia inteiro nele, nadava, dava de ponta e era chamado até de
Córrego dos Meninos. Na praia tinha cada poço muito grande, no Matadouro tinha o
poço do Lajeiro, mais em cima o poço do Matinho e mais em cima o poço do
Vigário. No poço do Vigário a gente fazia festa, piquenique, tocava e lá tinha
uma grama muito bonita.
Naquele tempo as vendas e lojas vendiam de tudo e era
fiado e só recebia no final do ano, quando a boiada era vendida. Todo mundo
tinha uma caderneta onde era anotado a compra. Só o operariado pagava no final
do mês. Política aqui era um caso sério, uma pessoa de um partido não votava no
candidato do outro partido. Um dia estava na estrada e na frente ia o Pedro
Rocha do PSD e eu vinha em um caminhão atrás e eu era da UDN. Parado na estrada,
estava o Alexandre Landim esperando carona. O Pedro parou o Jeep e ofereceu a
carona e o Alexandre não aceitou. Quando eu passei ofereci carona e ele aceitou
e comentou: "aquele pessedista teve a petulà¢ncia de me convidar pata entrar no
Jeep dele".
A mamãe me contou que quando Siqueira Campos passou em Paracatu, a
Coluna foi dormir lá em são Sebastião, na fazenda de meu avô e lá eles jantaram,
dormiram e almoçaram. Eles saíram depois do almoço e meu pai foi requisitado
para levar a Coluna até Unaí, e de Unaí queriam que papai continuasse mas ele
não aceitou e eles arrumaram uma outra pessoa. Siqueira Campos queria queimar a
ponte no Rio são Pedro e papai falou para ele não queimar, que era muito difícil
construir um ponte e ele não queimou a ponte.
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