Eu
nasci em 20 de Junho de 1929. Os meus pais moravam na fazenda Pouso Alegre, de
Mário Mariano de Almeida. O meu pai, Teclo da Silva Neiva, era paralítico, mas
fazia de tudo na fazenda. Era marceneiro, pedreiro e quando casou já estava
aleijado. Ele teve quatro filhos e eu sou o mais velho. Quando eu tinha oito
anos, mudamos para a fazenda do Canto do Sr. Pórfiro de Araújo Caldas. A minha
mãe, Quintina de Araújo Caldas, já tinha morrido quando mudamos. Lá na fazenda,
vivi, casei e morei 50 anos.
Na fazenda Canto eu fazia de tudo, trabalhava como
lavrador, carpinteiro e construtor de casa. O meu pai, também fazia de tudo
morreu e morreu com 84 anos em 1973. Morei um tempo aqui em Paracatu, não tinha
rádio, eram poucos os carros e todo mundo navegava na cidade nos carros de boi,
no cavalo e na carroça.
Tinha aqui uma pessoa que possuía um rádio, era o
radioamador, era conhecido como Martins do rádio. Só ele que mantinha contato
com outros radioamadores e só as pessoas importantes é que tinham acesso a este
rádio. Na Quintino Vargas era onde tinha mais casas e era a rua principal.
Abaixo do atual Banco do Brasil, tinha um posto de gasolina do Sr. Vevé. As ruas
eram calçadas com pedras grandes, e o calçamento foi feito pelos escravos. As
casas eram grandes, feitas de madeira e adobe e os muros eram feitos de barro
misturado com capim.
Na atual Olegário Maciel só tinha a casa do Sr. Gerônimo e
tudo ali era a fazenda dele. A casa dele era ao lado de onde está o Jóquei
Clube, era uma casa comum de barro e madeira, uma casa grande. No lugar da
Olegário Maciel era uma estrada boiadeira, isto é, só passava boiada e tudo ali
era um pasto só. O bairro Bela Vista era um pastão, no bairro Amoreiras não
tinha casa. Onde é a Escola Estadual Antônio Carlos , tinha uma oficina para
consertar caminhão velho, dali para baixo era tudo mato puro. No córrego do
menino, tinha muita água e margeando o córrego era tudo mata, pasto e invernada.
O que mais me marcou naquela época, foi quando passou uma avião em cima de
Paracatu, o povo todo saiu para rua, estavam com medo e muitos saíram correndo,
trombando uns nos outros. O avião foi pousar lá na Várzea do Moinho,
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pois, lá
tinha um campinho. O piloto do avião era o filho de D. Jovita Pinheiro. Aqui em
Paracatu não existia nada, e nem hospital tinha, depois é que fundaram a Santa
Casa. A cadeia era na praça, perto da Prefeitura, onde está construindo a Caixa
econômica Federal. não existia rodoviária. Antes desta cadeia que eu falei,
tinha uma outra, onde é a casa do Saul Botelho, mas foi o meu pai que a
conheceu. Existia um mercado, ali perto da Casa da Cultura, onde será o Museu de
Paracatu.
No mercado vendia tudo: feijão no saco, arroz em casca, rapadura,
açúcar de forma e milho. não vendia no peso, era no prato. O prato era feito de
madeira e um prato era dois litros. Dentro das casas não existia banheiro, a
privada era no fundo do quintal, era construída de madeira em cima da fossa. A
água era de cisterna.
Tinha também os chafariz: um era em um beco que ligava a
rua do a'vila com a rua das Flores, outro chafariz era no tanque Olhos d'água,
perto da Cooperativa, sendo que a rodovia enterrou parte dos Olhos d'água. As
pessoas ricas moravam na rua do a'vila. Eu morava na Rua Manoel Caetano e o fundo
da casa dava para a Quintino Vargas. O telhado da casa era com telha comum,
caibro roliço, o chão era de terra batida, parede de adobe e não tinha forro. O
levantamento da casa era todo de madeira. A janela e porta também era de
madeira, o fogão à lenha, privada fora de casa , água de cisterna. No quintal
tinha fruteira: laranjeira, bananeira, mangueira, jaboticabeira e um curral para
prender cavalo.
Aqui em Paracatu, tinha muito cavalo e o Sr. José Pedro
Gonçalves, o pai de Genésio Gonçalves Pereira, tinha um curralzinho onde ferrava
os animais. A rua onde é hoje o Bradesco, existia poucas casa, a casa do Sr.
Genesio do lado direito indo par a rua Olegário Maciel; do lado esquerdo tinha
duas casa de mulheres da vida.
Tinha também aqui em Paracatu outras casas de
mulher da vida, lembro de uma logo abaixo de onde hoje é a Telebrasília, foi o
prefeito Walter Neiva que tirou elas de lá. Na polícia militar a gente tinha
muita confiança, o povo tinha respeito, eles eram bravos mas, colocavam ordem.
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