O meu pai chamava José Pedro Gonçalves Pereira e minha mãe Mariana da Silva Neiva. O
meu pai era um lutador, fazia de tudo, era ferreiro, tropeiro e entregava
mercadoria.
Eu nasci na Rua do a'vila, na casa de Dona Margarida Gonçalves
Pereira, era uma casa de perdição, era um "Rendez-vous". Minha querida mãe era
cunhada de Dona Margarida. Na hora em que eu fui nascer elas levaram ela para a
dispensa da casa, colocaram uns panos velhos lá e eu nasci. Era dia de carnaval,
todo mundo estava pulando e o baile parou quando eu nasci. Paracatu era muito
pequena, só existia lá para baixo da rua Goiás. Chamava rua Goiás porque os
carros de boi, que passavam ali, era para ir para Goiás. Naquele tempo, a cidade
possuía cinco igrejas: Santana, Matriz, Amparo, Rosário e Abadia. Hoje só existe
a Matriz e o Rosário.
A igreja de Santana era uma igreja grande, tinha uns
gavetões que guardavam as roupas dos padres, e seus puxadores eram de ouro puro.
Tinha chave de ouro, dobradiça de ouro e até prego de ouro. Quem levou tudo
embora foram os portugueses, só se ouvia falar na época que os portugueses
levaram o ouro da igreja de Santana.
Era uma igreja muito bonita. A igreja do
Amparo eles desmancharam e no lugar fizeram uma praça chamada Cristo Rei. A
igreja da Abadia era no lugar onde é a Praça Firmina Santana. Eu casei em 1934,
no dia 27 de junho na igreja do Rosário e era onde os pobres casavam. Os ricos
casavam na Matriz, só os ricos casavam lá.
Fui viver com minha mulher na rua
Capelinha, trabalhava de caldeireiro. Eu fazia alambique, tacho, cafeteira,
lamparina e ralo de ralar queijo. A Casa Rocha, Casa João Macedo e Casa Santiago
encomendavam o que queriam e eu fazia para eles. Comecei a profissão com Manoel
Timóteo Teixeira, era meu padrinho.
No lugar dele me ensinar, ele me levava para
o Brocotó para plantar feijão e me fazia de cargueiro. Minha tia Margarida
zangou com ele e me tirou de lá, pois ele não estava me ensinando a profissão.
Ela me levou para a oficina de Alexandre Fernandes Silva. O Sr. Alexandre e a
senhora dele era o mesmo que meu pai e minha mãe e me ensinaram todo o ofício.
Fiquei lá 18 anos e sai de lá sabendo tudo.
Saí de lá já casado e com uns 30
anos. Fui relatar manteiga no Armazém do Quintino Vargas. Relatar era fazer e
embalar a manteiga. Passei a ser manteigueiro. Fui trabalhar com Joel Batista,
fazendo manteiga e lá fiquei nove meses e quando fui receber só me pagou um mês,
recebi 120$000.(cento e vinte mil reis).
Trabalhei nas fábricas de manteiga de
Chico Pinheiro, Veredas, Alegria, Pouso Alegre que era de Osório. O armazém de
Quintino Vargas era na rua Goiás com a travessa de são Pedro . Trabalhei também
na fábrica de manteiga de Juquita Vargas ali onde hoje é a Cooperativa. A minha
maior alegria na vida foi quando casei e a maior tristeza foi a morte de meu pai
e minha mãe.
No meu tempo de criança, a minha avó fazia um carrinho de cuia e me
dava para brincar. Paracatu era pequena, era mato puro a partir da rua Joaquim
Adjuto Botelho e para lá era chamado de Tainha. Quando eu mudei aqui para esta
rua ( rua Joaquim Adjuto Botelho) vim mirar em um chalé de quatro cômodos e me
chamaram de louco.
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Aqui era cabeceira do Tanque do Nerva, lugar de jogar
porqueira. A rua era de terra e tinha uma vala no meio da rua para correr água.
Aqui na rua, pregado onde é o atual Banco Bradesco tinha umas casas de perdição
de Dona Mariinha. Na rua são Sebastião era só pirataria é hoje a rua Camilo
Pena.
Os homens freqüentavam estas casas, eu não ia, era casado, gostava de
minha senhora. A rua Quintino Vargas só tinha portão do lado direito de quem
sobe, pois, os fundos das casas, os quintais, davam para a Quintino Vargas. Do
lado esquerdo da rua era um largo, mas tinha um posto de gasolina de Everardo
Santana, onde é atualmente o Banco do Brasil. Primeira casa na Quintino Vargas
era a casa de Antônio Caetano de Souza, onde é hoje a drogaria, na esquina da
rua Joaquim Adjuto Botelho com a avenida Quintino Vargas. Aqui tinha uma
discriminação danado entre PSD e UDN e eram adversários até a morte, só quando o
PSD perdeu é que melhorou a situação.
Quem matou ele foi o filho do Tenente Venceslau. Os
padres aqui e era bons, eu era leguista, irmandade dos homens para rezar, rezava
muito e era bacana. Tenho saudades deste tempo, quando eu ia na igreja eu
voltava alegre.
Tinha o prefeito da liga, o meu prefeito era Nonó Carvalho, o
prefeito geral das ligas eu não sei quem era. até hoje eu rezo toda noite: "com
Deus eu me deito, com Deus me levanto, com a guia de Deus e do Espírito Santo ".
Esta é a minha reza, não tenho outra. Naquele tempo a gente era muito pobre, não
tinha hora certa para comer.
A gente comia uma comida muito pesada : costela ,
feijão com pé de porco. A gente não passava fome, não tinha comida de luxo, mas
comia todos os dias. Meu pai era ferrador de cavalo, minha mãe fazia colchão de
capim e enxerga para pôr no lombo do cavalo. Nós nunca devemos dinheiro a
ninguém. Quando eu era menino, ouvia falar que Dona Beija morava aqui em
Paracatu e que era uma pessoa muito distinta e boa. Era as mentes das pessoas
que degradava ela.
O Tiofão o Tiófilo, era quem tocava sanfona para ela, ela
gostava de escutar ele. Eu gostava muito de fumar e fazer o meu cigarro. Um dia
fui no Posto Moirão e Trajano Neiva estava fazendo um cigarro e achei o fumo
dele muito cheiroso e pedi a ele um fumo para fazer um cigarro . Ele falou que
onde tinha comprado tinha muito. Tirei as minhas palhas e o fumo e joguei nele e
nunca mais fumei em minha vida e nunca mais voltei lá, e ele era meu
parente.
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