O meu pai era baiano e minha mãe paracatuense. O papai chamava Antíssimo José Lisboa e chegou aqui em Paracatu com a idade de 14 anos. Ele veio acompanhando o seu pai, Melquíades José Lisboa, que era tropeiro. O Melquíades, meu avô, comprou a fazenda Paiol, que ainda é da família, é o meu filho quem cuida da terra agora.
A fazenda é na margem do Rio Santo Izabel e do Córrego Paiol. A minha infância
passei na fazenda e aqui na cidade. Na fazenda eu fazia de tudo, capinava,
tirava leite, batia pasto, fazia cerca, não tinha tempo para mais nada. Lá tinha
o monjolo para preparo de alimento; batia arroz, o café e o milho. Funcionava
dia e noite, de longe a gente escutava o batido do monjolo.
Aqui em Paracatu nós
morávamos nesta mesma casa, é a antiga Rua da Praça, porque lá em cima tinha uma
praça. Esta rua já foi chamada de Rua Afrânio Mello Franco. A cidade de Paracatu
era o melhor lugar para se passar a meninice, pois não tinha luz e nem carro,
mas tinha as praias com seus poços para tomar banho, era o poço do Praxedes,
Lajedo e Matinho. Toda noite de luar, a meninada descia para os poços tomar
banho. A gente dormia com a porta aberta.
No largo do Leopoldo Faria a gente
pegava os animais, amarrava lata de querosene no rabo e colocava o juá embaixo
do rabo. Os animais saíam pelas ruas de pedras fazendo o maior barulhão. A
meninada andava pela redondeza toda, apanhando gabiroba, araçá, cajuzinho do
campo.
A gente gostava muito era de apanhar marmelada, no marmeleiro. A noite a gente brincava de marcha - soldado pelas ruas de Paracatu. É um tempo que não volta mais. As Igrejas do Amparo, Abadia e Santana eram maravilhosas, foi uma
grande pena ter sido desmanchadas.
A velha cadeia era um prédio de dois andares,
no primeiro andar funcionava as prisões e em cima o fórum. No lugar do Colégio
das Irmãs tinha um casarão muito grande e funcionou lá a antiga Escola Normal.
Tinha dois chafariz aqui em Paracatu. O primeiro chafariz era na Praça do
Chafariz em frente da atual Câmara e o outro chafariz era no beco do chafariz. O
beco do chafariz começava na Rua do Ávila e saía na Rua das Flores.
Aqui em Paracatu, tinha a festa do divino, Coração de Maria, são Benedito, são João e
Santo Antônio. Os caretas, nas festas, saíam pelas ruas acompanhados pela
meninada.
Quando os revoltosos chegaram aqui em Paracatu, entraram por esta rua, a Rua da Praça. Aqui em frente de casa funcionava o telégrafo. Um revoltoso me
pediu um pau grande para arrombar a porta. Eu era criança, corri e trouxe para
eles a mão de pilão e eles arrombaram e quebraram tudo.
|
|
Um engenheiro de São
Paulo, o Dr. Fritz, estava no passeio conversando com minha irmà que estava na
janela, no momento em que os revoltosos chegaram. O Dr. Fritz conheceu uma
pessoa do grupo e perguntou ao seu conhecido o que seria feito das famílias e
ele respondeu se alguém desrespeitasse alguma família, seria castigado. Eles
eram em torno de 300 homens a cavalo. Estavam barbudos, coletes e botas. Todos
conduziam um revólver e um fuzil. Daqui, eles foram atacar a cadeia e soltaram
os presos. O estoque da Casa Rocha, eles jogaram na rua. Logo que eles foram
embora, a polícia chegou.
Aqui em Paracatu estudei no Colégio Afonso Arinos,
onde eu fiz o grupo. A adaptação estudei na Escola Normal Antônio Carlos. No
ginásio, eu fui estudar no Colégio Interno Dom Lustoso, na cidade de Patrocínio.
Gastava-se três dias para chegar lá, no caminhão.
O Colégio era dirigido pelos
padres Holandeses. Só vinha para casa, nas férias do final do ano. Depois eu fui
fazer medicina em Belo Horizonte, na UFMG. Formei em 1944 e fui trabalhar em
Conceição das Alagoas no Triângulo Mineiro. Voltei para Paracatu em 1960. Minha
vida foi trabalhar para os outros, sou pobre de dinheiro mas rico de amizade.
Tenho muita saudade da Paracatu antiga, era uma família só. Culturalmente era
muito desenvolvida. Tinha um teatro maravilhoso que apresentava lindas peças. Um
dos prédios que representava Paracatu era o teatro que foi descaracterizado pelo
proprietário. Ele comprou o prédio e desmanchou a parte interna para fazer
platéia para o cinema.
A política aqui era muito rígida. Tinha o partido do
Quintino Vargas chamado de merendinha e o partido dos Brochados e Botelho que
era conhecido como cata - vento. O Dr. Brochado era um ótimo médico, mas,
gostava muito de política, ele era um durão, parecia que a política corria em
suas veias. Eles não perseguia ninguém.
O cemitério antigo de Paracatu era muito
bonito, era bem tratado, tinha muitas árvores e os túmulos eram de rara beleza.
O primeiro rádio de Paracatu foi o de Olympio Gonzaga. O rádio era de galena.
Colocava dois fones no ouvido, na ponta do fio tinha a agulha magnética que era
colocada na pedra galena. Ligado na pedra galena tinha um fio que ligava na
antena. Só quem estava com o fone no ouvido, escutava o que se falava no rádio
galena. Pedra galena era uma pedra de chumbo.
Na revolução de 1930, o juiz Dr.
Assis foi para a casa de Olympio Gonzaga e ia narrando as notícias que escutava
no rádio galena para o povo que estava em frente da casa. Quando cheguei aqui em
Paracatu, praticava a Clínica Geral e era médico de família. Eu visitava os
doentes de casa em casa, ia a pé ou a cavalo quando o doente morava na zona
rural. Os partos eram feitos nas casas e só ocorria o parto normal.
|