O papai nasceu no Espírito Santo da Forquilha, nas bandas do Rio Grande.
Ele chamava João André. Mudou para Paracatu e foi morar na granja Pimentel, eu tinha
15 anos. A minha mãe chamava Maria Cândida, ela costurava para todo o mundo, ela
fiava e tecia coberta e pano. Abaixo da Igreja do Rosário em direção ao Santana
é que era a cidade, para cima não tinha nada, era um capoeirão danado.
Na atual
Av. Quintino Vargas era um beco com ranchos de capim. A atual Olegário Maciel,
era um cerradão também, e lá em cima, onde é o atual Jóquei Clube só tinha o
prado onde acontecia a corrida de cavalo. A Vila Mariana era cerrado. No
Paracatuzinho tinha uns seis ranchos de capim e três ou quatro casas de telha
comum.
O cerrado e mato ia até a fazenda de Pio Fernandes. Aqui no Santana tinha
poucas casas e a Igreja. No sobradinho tinha um morador antigo que esqueci o
nome dele, depois ele mudou e a casa do Sobradinho passou a servir como casa de
oração. Uma vez ou outra celebrava missa no Sobradinho na época de festa. Quando
chequei aqui em Paracatu, todo mundo falava que Dona Beija tinha morado aqui em
Paracatu.
Trabalhei na fazenda do Miguel Santiago , fazendo cachaça e na
atividade de carpinteiro consertando casa. Mais tarde fui trabalhar na Igreja
Matriz como carpinteiro. Arrumei todo o telhado da Matriz, tirei as telhas
velhas coloquei as telhas plan. As primeiras telhas plan que chegaram aqui em
Paracatu foram para a Matriz e foi eu quem coloquei. Arrumei a pernadalia
retoquei as janelas da igreja que estavam desmanchando. Eu e o Nemésio trocamos
o altar velho pelo altar que veio da Igreja do Santana. O papai foi quem carreou
o altar da Igreja do Santana para a Igreja da Matriz, carreou no carro de boi .
Demoramos uns dois meses para montar o altar.
A cruz lá na cumeeira da igreja,
foi eu quem troquei, tirei a velha, fiz uma nova e coloquei. Aquele forrado no
fundo da Igreja foi eu, finado Juquitão e o Nemésio quem fez. Cada quadra do
piso da Matriz era uma sepultura. As sepulturas dos padres eram lá em frente do
altar, na parte de cima. A sepultura do pessoal comum era no piso de baixo. Quem
não tinha dinheiro para pagar era enterrado atrás da Matriz. Eu estava
consertando o telhado no fundo da Matriz, quando pisei numa tábua ela afundou
comigo e eu estava caindo, a aliança que me salvou, ela pegou no arame farpado,
aí que eu segurei e de para eu levar a outra mão e assegurar, não tinha nenhuma
proteção era uns 20 metros de altura.
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No mercado eu trabalhei retocando as
partes que estavam caindo. Lá no mercado chegavam os carros de boi trazendo o
arroz, feijão, farinha, rapadura e goma. Os carros de boi ficavam na frente do
mercado, colocando um ao lado do outro. A boiada era solta no pasto, lá no campo
onde era o prado e a noite vinha pousar no curral do mercado.
Dentro do mercado
era usado para fazer comida e era onde os carreiros e tropeiros dormiam. A atual
Casa de Cultura servia também como hospedagem e mostruário de artigos para
viajantes. Quem quisesse comprar panela, arreio ia lá para comprar. No mercado
vendia gêneros alimentícios e lá onde é a Casa da Cultura, vendia objetos e
mesmo animais.
A criação era diferente das de hoje, menino para sair de casa
para brincar, só com as ordens dos pais. O papai não batia, mas, a mamãe batia
na gente com uma guaspa fina quando a gente fazia arte. Era comum bater com
chicote nas pernas e na bunda. não usava bater na cabeça e nem nas costas, pois,
a criança podia ficar doida.
Quando a gente saia a noite, o pai marcava a hora
para chegar e se não chegasse na hora certa, recebia um sermão e não deixava
sair mais. Era comum também a reza na casa. Cada dia era na casa de um dos
vizinhos a reza.
Quando eu era menino, levantava uma das pedras de calçamento
das ruas, tirava a terra e ia batear a terra lá no córrego. No outro dia, vendia
o ouro para o finado Eduardo e apurava 2 a 3 mil reis ( 2$000, 3$,000), e esse
dinheiro era para ir no cinema que era atrás da Igreja do Rosário.
Antigamente,
lá da praia do macaco até lá no Brocotó era cheio de homem, mulher e criança
tirando ouro. Todo mundo de Paracatu tirava ouro.
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