O meu pai chamava Ernesto Joaquim Santana e a mamãe chamava Carlota Fernandes Chaves.
Ele era fazendeiro. Nasci em Paracatu, na Rua da Praça, hoje ela chama Rua
Temistócles Rocha. Quando eu nasci, logo tive um defeito no ouvido, sofri muito
com dor de ouvido. Tirando a dor de ouvido eu sou muito sadio. Eu brincava muito
de carrinho de boi para transportar lenha e cereais. Era eu mesmo que fazia e
puxava o carro. Eu era o construtor dos carros. Brincava mais dentro de casa, ou
então ia para a fazenda de meu parente para comer fruta.
Estudei no Grupo Escolar Afonso Arinos, durante dois anos.
Nossa família era muito pobre e não pude continuar estudando. Eles mataram meu pai.
Ele era o delegado e um dia foi apaziguar um distúrbio lá na fazenda Tapera.
Ele foi chegando e o Marciano matou ele com um tiro nas costas dele. Papai deixou nove
filhos para mamãe criar.
Papai também era alfaiate e cabeleiro. Ele tinha um bauzinho de latão com todas
as ferramentas para cortar cabelo e fazer barba. Saía com aquela maletinha e ia
nas casas dos seus clientes.
Depois da morte dele, passei a capinar rua, buscava
água para o Ermeto de Carvalho. Eu punha duas latas de querosene vazia no
carrinho e ia buscar água lá no capão, numa bica perto do córrego Rico. Uma lata
era lá para casa e a outra para o Ermeto. Eu levantava de madrugada para apanhar
água. De vez em quando o Ermeto me dava uns trocados.
Aqui em Paracatu tinha um
italiano que chamava Atílio Bonifácio. Ele tinha uma oficina de conserto de
caminhão. Eu fui aprendiz dele e dava quinal nele, ele era burro demais. Aprendi
a dirigir lá na oficina do Atílio. Depois ele me mandou embora, porque eu fiz um
serviço e ele quis me corrigir e eu não aceitei. Então ele me mandou embora.
Comprei um caminhão Chevrolet 1918 e então eu ia levar e buscar mercadoria em
Patrocínio e Patos de Minas. Apanhava também carga no Porto Buriti e trazia para
Paracatu. Eu trazia do Porto : sal, arame farpado, café, trigo. Tudo vinha de
Pirapora.
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Aqui em Paracatu tinha uma escola de aviação, era o Aeroclube. O campo
era na Várzea do Moinho. Nós construímos lá o Hangar. Eu aprendi a pilotar lá no
Aeroclube. Tirei o brevê logo. Aprendi a voar e um dia o avião deu uma pane e
caiu comigo, fui cair lá dentro do campo. Nós mesmo é que consertamos o avião
todinho. Meu colega de piloto era o Jiló Rabelo e mais uns oito. Depois comprei
um avião. Eu ia para são Paulo e outras cidades. Naquele tempo não tinha
estrada, então eles pegavam o avião. Quem mais viajava eram os Botelhos, os
Adjutos e os Brochados.
O meu avião era o PTARI. Eu participei daquela revolução
que atacou Goiás Velha. Eu ofereci como voluntário a Quintino Vargas. Fui e
voltei dirigindo o meu caminhão. Passei até fome, não tinha comida. Um dia fui
comer carne, mas a carne estava cheia de bicho. Tivemos que ir tirando os
bichinhos lá de dentro da boca.
Eu conheci o Saul aqui em Paracatu, ele era um
bandoleiro. Fui eu que levei a polícia no meu caminhão para ir prender o Saul lá
perto de Unaí. O caminhão atolou e os policiais tiveram que pegar cavalo para
seguirem a viagem. Só muito depois é que cheguei em Unaí. A polícia acabou
matando o Saul e ele morreu pôr lá. O Saul era uma pessoa bem aparecida e acabou
arrumando este negócio de assaltar fazendas e virou bandoleiro.
A primeira usina elétrica daqui de Paracatu, era movida
com autoclave, era a vapor. Ela funcionava na fazenda do José Pinto e dava luz para Paracatu.
Apenas poucas casas tinham luz. Só mais tarde é que fizeram uma usina no Ribeirão do Sotero,
com turbina hidráulica. O primeiro avião que eu tive foi comprado de Miguel
Santiago. Eu fiquei com o avião apenas dois anos, porque ele tinha os anéis
cônicos no motor e vazava muito óleo, era um defeito de fabricação. Eu era um
bom mecânico, desmanchava o avião todinho, e tornava a montar e ia voar. Na
outra rencarnação vou comprar outro avião.
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