Rufino Batista Gomes era o nome de meu pai e minha mãe chamava Clemência
Ferreira de Moura. Ele era vaqueiro dos Botelhos na fazenda Conceição e
Palmital. Minha mãe fiava algodão, ela tinha a roda e o fuso, e vendia os
novelos de linha de algodão.
A roda era de madeira e tocava com os pés. Apanhava
o algodão, limpava, tirando os ciscos. Depois passava no descaroçador . O
descaroçador era uma peça de manivela que tinha duas moendas para tirar o
caroço, era todo de madeira.
Depois, do algodão sem caroço, passava na carda,
para cardar o algodão, ele ficava todo fofinho. A carda era duas tábuas
quadradas e em cada uma das tábuas tinha um arame bem fininho. Punha o algodão
ali e batia e ele ia ficando fofinho. Pegava então o algodão e ia passando no
fuso e o fio ia sendo enrolado na roda. Quando os meus pais casaram, eles foram
morar na Lagoa do Santo Antônio e eu nasci lá.
Quando papai morreu, a mamãe
ficou com as duas filhas e deu os dois filhos homens. Eu fui ficar com o Sr.
Lauro Guimarães, que era meu padrinho. não conclui o primário e voltei para
morar com mamãe e fui trabalhar na roça para o Sr. Maximiano Alves Campos.
Trabalhei no serviço de moer cana. Depois fui de fazenda a fazenda, trabalhando,
até chegar em Franca. Em Franca tinha os japoneses que arrumavam emprego nas
fazendas de são Paulo e fui parar lá. Trabalhei uns seis meses em são Paulo e
depois vim trabalhando de fazenda a fazenda até chegar novamente em casa.
Em São Paulo, colhia café, fazia a limpeza do cafezal, na moagem da cana e na Salina.
Na Salina, eles faziam uns corredores muito grande e na lua nova, quando o mar
estava agitado e bravo, as águas entravam pelos corredores. Quando a água do mar
queria voltar, não podia, porque a porta da entrada era fechada. Para entrar a
água empurrava a porta e quando a água ia sair, fechava a posta. A água do mar
ficava presa naqueles corredores cumpridos e ali ela ficava até secar. Quando a
água secava, ficava o sal e a gente ia tirando e ia formando uma montanha de
sal. Depois colocava lenha na montanha e punha fogo para o sal secar. Ficava um
cascão em cima da montanha, na superfície. A gente ia tirando aquelas pedras de
sal e ensacando para a venda.
Quando cheguei aqui em Paracatu fui trabalhar com
Anísio Botelho na fazenda Olhos d'água. Ele comprou uma destilaria e fazia
cachaça. A cana era moída e saia a garapa. A garapa caia em um cocho de madeira
com uns 2 metros de cumprimento por 1,5 de largura . O cocho tinha quatro pés,
ele não ficava assentado direto no chão. Antes da garapa cair no cocho a gente
preparava o fermento. O fermento era preparado em uma vasilha de madeira muito
limpa. Torrava o milho, secava e colocava no vasilhame de madeira, punha depois,
bagaço da cana, para pitar (fermentar).
Quando estava fermentado jogava dentro
do cocho e todo dia punha um pouco de garapa até encher o cocho e a garapa ia
pitando. O fermento não podia deixar todo mundo olhar pôr causa do olho gordo
que degenerava o fermento todo. Quando a garapa estava bem fermentada, abria a
torneira de madeira do cocho e jogava dentro do alambique. O alambique era todo
de cobre buliado. Embaixo do alambique punha fogo e uma bica de água caía em
cima do alambique para resfriar. Com o fogo controlado, o suor da garapa saía em
um canudo que caia em uma vasilha. Enquanto estava saindo espuma grossa, era
cachaça da boa e quando a espuma ia rareando já era água fraca. A água fraca era
colocado junto com a garapa fermentada para outra lambicada. A pinga era
colocada em uma dorna de madeira feita de imburana ou jatobá, porque soltava uma
tinta na cachaça e dava um gosto bom na pinga.
Naquele tempo, era pinga pura,
boa. Hoje a pinga é mista, álcool e pinga. Quando casei, mudei para a cidade.
Casei com Adília Pereira Gomes, filha de João Pereira dos Santos e Maria Roquete
Franco. Vivi com ela 36 anos e tive 8 filhos. Mudei para o Paracatuzinho,
chamava na época, pasto do Matadouro, era um pasto só até na Serra da Contagem.
A primeira casa de telha foi a minha e na frente era construída de tijolo e nos
lados e nos fundos era de adobe.
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Tinha muita gente morando aqui, mas, tudo em
rancho de capim. Abri uma venda, que vendia gêneros alimentícios e bebidas. Cai
na tolice de comprar terra lá no traíras, era 10$000 ( dez mil reis ) o alqueire
de 60 litros. não tinha o equitare, falava o litro. Vendi a venda e levei tudo
para lá.
Lá tinha um bom movimento e então fui comprando terra, o dinheiro fui aplicando em terra. Cheguei a ter 900 alqueire de terra. Fiz lavoura, envernada, criava gado e tocava o armazém.
As crianças foram crescendo e a família veio para Paracatu e
eu fiquei lá. Depois vendi tudo, muito barato e, abri comércio na Eduardo
Pimentel e mais tarde, vendi lá e abri o comércio no Arraial da Angola, na
frente desta casa que moro hoje e em 1996 fechei o comércio.
Chama Arraial da
Angola, porque naquele tempo todo o mundo daqui criava a galinha d'Angola, a
galinha cocá. Aqui só tinha rancho de capim e era terra batida.
O matadouro de
Paracatu, era na atual Quintino Vargas, tinha um pé de jabuticaba, onde está
hoje o BEMGE. Amarrava a rês na jaboticabeira, matava, esquartejava, punha os
quartos nos ombros e ia embora. não tinha açougue, o vendedor de carne, colocava
as postas penduradas em ganchos na casa onde ele morava, e o pessoal ia comprar.
Depois a prefeitura fez o matadouro no Paracatuzinho, onde é hoje a garagem da
prefeitura e mandou as pessoas que vendiam carne a fazer os açougues. A carne
era distribuída para os açougues nas carroças e mais tarde em um caminhão velho
que a Prefeitura comprou.
Todo o terreno do Paracatuzinho foi primeiramente
doado para Nossa Senhora de Santana. O bispo Dom Elizeu colocou na praça e o Sr.
Genesio Laboissiére arrematou e depois vendeu para o velho Leopoldo de água
Limpa. Eu comprei todo o terreno do Leopoldo por 600$00 (seiscentos mil reis).
Então, o Paracatuzinho já foi todo meu, mas, vendi para o Paulo Cléber Ulhoa que
acabou loteando todo o terreno.
Aqui em Paracatu só tinha pobre, negociante e
fazendeiro. Os pobres trabalhavam nas fazendas. não tinha luz, água e esgoto. A
luz era de lampião. Nos principais sobrados eles pregavam o lampião na parte de
fora das casas e quando chegava noitinha acendiam os lampiões e ficava aceso a
noite toda. A água era puxada da cisterna.
Os pobres também tiravam ouro nos
córregos. Punha a terra o cascalho na bateia, e ia batendo até ficar o esmeril
com o ouro. O esmeril com o ouro era colocado no carumbé. O carumbé era uma
vasilhinha, bem limpinha e sem nenhuma gordura. Depois tirava do carumbé,
colocava no fogo para secar e tirava todo o esmeril com um imà e depois ia
soprando bem devagarinho para tirar os cisquinhos que o imà não pegava. O puro
era então colocado em um vidrinho para vender.
Quando eu era menino, sabia que
Dona Beija morava aqui em Paracatu. Ela morava na Rua da Praça, atual Rua
Temistocles Rocha, na casa da esquina, onde é a casa de João de Pinho Costa.
Tenho muita pouca lembrança dela, ela gostava de homem casado. Era uma mulherona
bonita e de cabelo grande, depois ela foi embora. Foi o boiadeiro Lucas Borges
que levou ela embora.
Os fazendeiros de Paracatu não eram bravos, não tinham
jagunços, só a família Pinheiro é que tinha aquela jagunçada. Em 1919 aconteceu
aquela peste espanhola e morreu muita gente. O Ananias abriu uma funerária ali
atras da Igreja do Amparo, hoje Praça Cristo Rei. Lá tinha um caixão muito
grande e o povo começou a falar que era de Dona Gabriela, esposa do Pinheiro. Os
filhos dela acabaram procurando o Ananias e não o encontraram, então, arrombaram
a funerária e queimaram todos os caixões .
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