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"Onde é o Colégio das irmãs tinha um palácio, uma casa muito antiga e muito grande"

Edvar Gonçalves Cabeceira

Nascimento:  14 de agosto de 1921
Residência :  Rua Joaquim Adjuto Botelho N.º109
Entrevista:  11 de março de 1999

    O meu pai era o Geraldinho Gonçalves Cabeceira e minha mãe era a Maria Lopes da Trindade. O meu avô do lado de pai era o Sr. Antônio Gonçalves Cabeceira e minha avó era Joana Monteiro dos Santos; por parte de mãe o meu avô era o Possidônio Lopes da Trindade e minha avó era a Floricinda.
    A origem do nome Cabeceira, era porque a terra naquele tempo não era dividida e meu avô morava na Cabeceira da Vereda Buriti, perto de Guarda-Mor. O meu avô depois mudou para a fazenda Caetano, e nasci nesta fazenda de meu avô Antônio Gonçalves, na beira da Serra Geral. Quando meu avô Antônio morreu, mudamos para Paracatu, ali perto do cemitério, na ladeira da Saudade, eu tinha 8 anos. Era uma casa grande, mas não tinha luz, o piso era de terra batida, as paredes eram de adobe com esteio de madeira, o telhado era de telha comum.
    Tínhamos em torno de quatro vizinhos. não existia rua, era uma estrada que ia dar lá na praia, só passava gente a pé e o gado do Leopoldo Faria. O gado dele dormia ali perto de casa. Hoje, ainda existe a casa, é ao lado da garagem de ônibus de Turismo do Gaúcho. A casa foi melhorada.
    Fui matriculado na Escola Normal, ali onde é hoje a Casa da Cultura. Depois veio Grupo Escolar Afonso Arinos e passamos a estudar lá. Perto da Escola Normal as casas eram sobradadas com piso de tábua, era onde moravam os ricos da cidade. Onde é o colégio das irmãs tinha um palácio, uma casa antiga e muito grande. Naquele tempo, quando eu era criança, badalava muito a respeito de Dona Beija, era amasiada com um Rei.
     Ela veio de Vitória da Conquista para morar aqui em Paracatu, era uma pessoa muito rica, tinha ouro e escravos. No Grupo Escolar Afonso Arinos, eram os meus professores: Dona Canducha, Risoleta Chaves, João Bigudinho e Antônio Ribeiro.
     Na parte da manhà eu estudava; na parte da tarde, ajudava o meu pai tirar ouro na praia, no Córrego Rico. A gente faturava 1/8 (um oitavo) de ouro por dia, 30 vintém por dia. Quando chovia a gente não conseguia tirar muito ouro.
     A gente puxava, vinha puxando a areia e tirando o cascalho. A areia a gente colocava no caixote e coava e apurava na bateia, não usava o mercúrio, de vez em quando punha o azougue, depois colocava no fogo. Vendia o ouro para Agenor Mundim e recebia em dinheiro na hora. Ele morava na Rua Manoel Caetano em frente do atual açougue do Sr. Nego (Daniel da Costa Pinheiro). Tirava ouro toda tarde e a noite eu ia estudar à luz de lamparina. A comida da gente era: músculo de boi, osso picado no machado e colocado no feijão.
    Engordava-se muito capado e não faltava carne de porco. Era uma comida muito pesada. As roupas dos homens e mulheres eram feitas em casa, a gente comprava o pano na loja do Sr. Quim Santiago. A máquina de costura era manual. Naquele tempo, quando chovia, chovia a semana toda sem parar. Em frente do cemitério tinha uma enxurrada muito grande e a gente aproveitava para batear lá e dava ouro. Um dia saiu uma abotoadura de ouro e vendemos por 32$000 (trinta e dois mil reis) e neste dia surtimos toda a casa.
     O cemitério era bem menor, foi o Dr. Alaor que puxou ele para frente e para trás. No sábado e domingo a gente ia para o Morro do Ouro apanhar mangaba, gabiroba e araticum. Era costume ir também para a fazenda do Neto, ali perto de onde é a Polícia Rodoviária Federal apanhar jabuticaba. Quando surgiu a guerra, o meu pai, eu e meu irmão fomos para Cristalina tirar cristal.
    Ficamos lá seis meses procurando cristal e não tiramos nada, não ganhamos um tostão. Um dia tiramos um cristal e fizemos 60.000$000 (sessenta contos de reis). A metade era nossa a outra metade para o meia praça Pedro Lara. Meia praça era aquele que sustentava a comida e ficava com a metade do que se tirava.
     Quando fomos para Cristalina, fomos na carroceria do caminhão e quando voltamos, viemos de taxi, pois, tínhamos muito dinheiro. Depois o dinheiro acabou. Com 18 anos entrei para o serviço de eletricidade. A eletricidade era da Prefeitura e vinha do Ribeirão do Prata. A usina também era da prefeitura.
    Os dois primeiros anos trabalhei como operador de máquina lá na usina, depois fui ser auxiliar de eletricista aqui na cidade onde fiquei 8 anos. Quando a política mudou me mandaram embora e não me pagaram tudo , só me pagaram até o dia 15 do mês. Eu era da UDN e a política mudou para o PSD. Fui tomar conta da máquina de beneficiar arroz do Miguel Santiago, Antero e Gregório. Antero era médico, o Gregório era farmacêutico e Miguel tinha uma loja. Foi a maior alegria de minha vida, passei a ter médico, farmácia e loja. Fiquei com eles durante 4 anos. A luz da Prefeitura foi vendida para Hidroelétrica Melhoramentos Paracatu, aí entrei como encarregado do serviço. Era uma Sociedade Anônima. O diretor era o prefeito, Joaquim Adjuto Brochado, Ciro Guerra era o contador, o gerente era Celso Menhô.
    Trabalhei ali durante 14 anos. Quando mudou a direção, eu descombinei com o gerente. A descombinação foi porque a gente ganhava pouco e fizemos um ofício para a direção pedindo aumento e ai ocorreu a briga. O novo gerente, Roberto Wachsmuth mandou eu embora sem direito a nada. Arrumamos o advogado Joaquim Campos e entramos na justiça. Depois de quatro audiências eles conseguiram levar o processo para Belo Horizonte e o juiz de Belo Horizonte mandou voltar para Paracatu, mas eles conseguiram mandar o processo para Brasília está parado lá até hoje.
     A maioria deles eram maçons e tinham muita influência. Parei de mexer, fiquei cansado, não tinha dinheiro para ir lá. A maçonaria chegou a subir o posto do juiz de Paracatu para mandar ele embora daqui. O juiz chamava Mendonça de Barros, e o chefe da maçonaria era o José Ribeiro.
    Fui então trabalhar na Ruralminas fazendo a parte elétrica das casas dos colonos, oficina de mecânica, na fábrica de fazer moinho e na casa dos engenheiros. Fiquei lá durante dois anos e depois fui para Brasília, depois de Brasília, trabalhei no frigorífico de Geraldo Naves e lá fiquei dois anos. Voltei para Paracatu, a luz já era da CEMIG e passei a trabalhar como autônomo, eletricista e encanador. A luz aqui em Paracatu ligava às 9 horas e desligava às 16:00 horas, ligava às 18:00 horas e desligava às 6:00 horas. Na morte de Getúlio Vargas, a luz ficou ligada 8 dias direto para ouvirmos o repórter ESSO de Eron Domingues.
    Naquele tempo tinha a Casa de Saúde e o hospital do SESC, hoje Regional, já estava pronto, mas não estava funcionando. O Dr. Maneco falou que não podia inaugurar o hospital porque a hidroelétrica não tinha feito a parte elétrica. O gerente da Hidroelétrica, Celso Menhô , mandou a gente completar a ligação, inclusive no Raio X. Fizemos tudo e iluminamos em volta de todo hospital e todas as luzes ficaram ligadas durante oito dias, dia e noite sem interrupção, mesmo assim o hospital não foi inaugurado. O Dr. Maneco acabou ficando doente, buscaram o Dr. Canabrava em Araguari e quando o doutor chegou, mandou internar imediatamente o Dr. Maneco para operá-lo. Ele foi o primeiro paciente a inaugurar o hospital e o primeiro a ser operado e morreu dois dias depois e foi o primeiro morto do hospital.
     Lá na igreja da Matriz tinha o relógio, ficava lá em cima da igreja. No mundo só tinha dois relógios iguais e os padres queriam vender o relógio. Na época do Dudu Rocha transferiram o relógio para o Rosário. Eu, Sebastião Rosa fizemos a parte elétrica na igreja do Rosário. O encarregado para dar a corda no relógio era o Manuel de Irineu, foi então instalado no Rosário e funcionava até hoje e é este mesmo relógio que está ai até hoje.
    Quem colocou a luz na Igreja Presbiteriana foi eu, puxei a luz da fábrica de manteiga onde é hoje a cooperativa.


Próximo: Abílio Pereira da Silva