Não conheci meu pai, ele chamava José Germano Silva Neiva, era fazendeiro lá pelo lado de são Marcos. Na morte dele minha mãe trouxe toda a família para Paracatu.
Mudamos para esta casa em que estamos agora. Ela chamava Marieta Ribeiro de Jesus. A rua chamava Calvário, mudou para Rua da Praça e mudou depois para Ministro Mello Franco e agora chama Temístocles Rocha. A rua antigamente era
calçada de pedra até a farmácia do Dedé. As pedras eram grandes, tinha cada
bruta pedra.
Antigamente não tinha luz, era tudo escuro. As casas eram
iluminadas com as velas. Foi o prefeito Quintino Vargas que colocou a luz em
Paracatu. Os postes eram de madeira e ficavam no meio da rua. não tinha água
encanada, era água de cisterna.
Onde hoje é a padaria Pão Gostoso tinha uma casa
muito antiga, era a moradia de João Ulhoa, o bisavó de Zeca Ulhoa. O neto de
João Ulhoa desmanchou a casa e construiu este prédio que está ai agora. Quando
eu era menino, brincava nesta rua de cabra-cega, acusado, estrada de ferro. Eu
estudei até o 4ºano de Grupo no Grupo Afonso Arinos. Parei de estudar porque
quem não tinha dinheiro era difícil de estudar. não cheguei a fazer provas,
peguei uma febre danada e curei ela com chá caseiro, chá de flor de sabugueiro,
carobão e casca de limão. Quando eu tinha 10 anos, comecei a aprender a
profissão de alfaiate.
Comecei a costurar com o Tiodomiro, e passei pelos
alfaiates Apolinário, Sinval Jordão, Gilberto Neiva, finado Nequito, Demétrio,
Silvério e Silvio. Com 30 anos de idade fui trabalhar independentemente e estou
até hoje. Criei toda minha família na base da linha e agulha. Trabalhar para os
outros não dá, trabalhei para os outros e nunca consegui comprar uma máquina de
costura.
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Só depois que passei a trabalhar para eu mesmo é que fui adquirindo as
coisas. Naquele tempo não tinha prestação, era tudo no dinheiro. Na época de
festa nas Igrejas, aí é que dava movimento, todo mundo mandava fazer terno. O
terno mais usado era o de brim e passava com o ferro de brasa. Era o brim
"triunfador ".
Paracatu, na política era brava, gerava muita inimizade. Tinha os
Botelhos que eram do partido catavento e o lado do Quintino Vargas era o
merendinha. A política gerou muitas mortes. O Santos Roquete matou o Dr. Joaquim
pôr rixa política.
Além da braveza na política, tinha o Saul, que matava,
roubava e assaltava. O Saul tinha um grupo de bandoleiros. O povo tinha um medo
danado dele e acabou sendo morto lá perto de Unaí. Paracatu era uma cidadizinha,
nas ruas o pessoal andava a cavalo e tinha muito carro de boi. Os carros de boi
passavam por esta rua, vendendo lenha, vindo do Machadinho. A maioria do povo
era de gente pobre, os ricos eram apenas os Botelho e Brochado, eram eles que
mandavam na cidade, tudo girava em torno deles. Aqui eles contavam muitos casos
de assombração. Eu lembro que os mais velhos contavam que durante a semana
santa, o pai do Fifico Chaves, o Sr. Oliveira, que tinha morrido há muito tempo,
descia e subia a rua puxando uma corrente toda a noite.
Penso que a pior coisa
que ocorreu em Paracatu, foi o desaparecimento das Igrejas do Santana, Amparo e
Abadia. Hoje está tudo mudado, mudou tudo, mas, a vida hoje é muito melhor que
antigamente. Naquele tempo quem não tinha dinheiro não comprava e não havia
tanto serviço como tem hoje.
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