Meu pai era o Sr. Lauro de Sá Guimarães e minha mãe a senhora Violeta Pereira Guimarães. Eles moravam na fazenda Pouso Alegre. O papai era comerciante
ambulante.
Ele vendia roupa feita, chinelo e tecido. Ele saía a cavalo, punha as
mercadorias nas broacas e ficava fora uma semana inteira, vendendo lá pelos
lados do Ribeirão. Ele comprava o arroz, feijão milho, frango e capado. Toda
semana ele matava um gado, fazia as mantas muito grande, salgava e deixava no
sereno. A carne ficava cheirosa.
A mamãe era doméstica e costureira. Ela
costurava muito para fora, só costurava roupa de homem, fazia calça, camisa. Só
parou de costurar depois que ficou sega. Ela ajudava o papai nas despesas da
casa. Mais tarde eles mudaram para Paracatu. Papai comprou uma chácara onde é a
atual Rua Unaí, era uma chácara grande, ela pegava da Rua Unaí até o Posto
Moirão e pegava também a Rua Joaquim Murtinho. Meu pai sofria de chagas, ficou
quatro anos na cama e morreu de derrame.
Toda minha infância foi lá na fazenda
Pouso Alegre. Com 16 anos eu casei lá na Igreja de Pouso Alegre e mudei com meu
marido para Guarda-Mor. Fui morar na fazenda do meu sogro. Lá eu fazia doce,
biscoito, cuidava da horta e costurava muito para fora. Eu fazia calça, camisa,
paletó e vestido de noiva. não dava para ganhar dinheiro, porque cobrava muito
baratinho, o povo não tinha dinheiro. Eu achava tudo uma beleza.
O meu marido
era o José Pereira de Guimarães. Lá na fazenda aparecia muita visita, matava
capado e fazia também muito queijo. A gente trabalhava o dia inteiro. Até o
sabão a gente fazia lá na fazenda. O sabão era de quadra. Socava a cinza no
barrilheiro. O barrilheiro era um jacá de taquara. Depois que a cinza estava bem
socada no barrilheiro coloca a água, que ia pingando dentro do tacho, ia
pingando água preta. Dentro do tacho já tinha gordura, sebo e torresmo. Tudo
fervendo e a água preta ia caindo no tacho e cortando a gordura. O tacho no
fogo, aquilo tudo fervendo e a gente mexendo com colher de pau muito grande.
Quando babava, parecendo melado, tirava do fogo e deixava esfriando. Quando
aquela massa estava morna ia embalando, fazendo uma bola com as mãos. Era uma
beleza de sabão, lavava tudo com este sabão.
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Ali na fazenda era uma vida muito
boa. Os meus filhos brincavam com sabuguinho, laranjinha e faziam bonecas,
vaquinhas e carrinhos. Lá tinha muita rudia de cascavel, lobo e onça. Eles até
mataram um lobo na porta da cozinha.
Com 30 anos, nós mudamos para Paracatu.
Fomos morar na Rua da Abadia, onde é a casa hoje do Manoel Rabelo, depois
mudamos para o Arraial da Angola. Meu marido comprou uma venda e eu continuei
costurando, arrumando cabelo dos outros, fazendo permanente, alisando e cortando
cabelo. Eu ajudava muito o meu marido nas despesas da casa. Ele acabou tendo
prejuízo na mercearia e foi trabalhar na Escola Estadual Antônio Carlos como
inspetor de alunos.
A avenida Quintino Vargas era uma assa-peixe danado. Depois
mudamos para esta rua, ela chamava Rua da Fábrica, porque onde é a cooperativa,
era uma fábrica de manteiga. Ali onde estão fazendo a Caixa econômica Federal
era a cadeia nova, era muito grande. Onde é o meu quarto tinha um pé de jatobá
de todo tamanho. A rua da Fábrica passou a ter o nome de meu marido, Rua José
Pereira Guimarães.
Logo que mudei para Paracatu, comprei um rádio muito bom e
gostava de escutar as músicas caipiras e a hora do Brasil. Sou católica, rezo
muito, são três terços de manhà, três terços à tarde e três terços à noite.
Penso que depois da morte a gente não volta mais.
O melhor tempo de minha vida
foi quando o meu marido estava vivo e os meus filhos ao meu lado. Agora meu
marido morreu e tenho quatro filhos morando longe. Depois que meu marido morreu,
acabou minha alegria.
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