Meu pai era o Manoel Lopes dos Reis e minha mãe chamava Josefa Caldeira do Espírito
Santo. Meu pai trabalhava como vaqueiro e depois passou a cuidar da roça. Na
roça, uma parte do dia a gente plantava milho, feijão, arroz, mandioca e chuchu.
Na outra parte do dia a gente ia pro córrego garimpar. No garimpo trabalhava na
bateia e no caixote. Levantava cedo, antes do Sol surgir e voltava só ao
escurecer. Minha mãe ainda lavava roupa pra fora e mexia farinha para a senhora
Tica.
Toda a família trabalhava na roça e no garimpo. Na roça, o meu pai mexia
com a moagem de cana, ele fazia rapadura e eu saía pra vender rapadura na
cidade. A mamãe fazia chapéu e vendia também. Eu lembro que colocava as
rapaduras na cabeça e saía pra vender. Naquele tempo era da casa pro serviço e
do serviço pra casa. Em casa eu lavava roupa, lavava vasilha, socava arroz,
torrava café e depois socava o café no pilão e quando estava bem batido, passava
ele na peneira. O fogão era de lenha e a gente ia apanhar lenha no mato. Buscava
água na lata, lá no córrego, e trazia a lata na cabeça. Fazia a rudia de pano,
colocava ela na cabeça e depois punha a lata cheia d'água. As panelas eram de
ferro e a gente areava com areia e sambaíba ou palha de milho. O banho era na
bacia ou lá no Córrego são Domingos. O sabão era de tacho, feito em casa. Punha
o sebo para cozinhar com soda, até destruir tudo e depois deixava secar.
Colocava soda no tacho junto com o sebo e depois punha pra secar e quando
esfriava cortava em pedaço e guardava. O sabão que fedia era feito de carniça.
Morria um gado, o urubu comia e depois a gente pegava os ossos e punha pra
ferver com soda. A gente quebrava os ossos e na fervura com a soda a gordura
saía e assim fazia o sabão. O sabão de sebo era melhor pra tomar banho e o sabão
de carniça era melhor pra lavar roupa, só que tinha que enxaguar muito a roupa
para ela não ficar fedendo.
Eu aprendi a fazer chapéu com minha mãe. Tirava a
palha do coqueiro, cozinhava a palha, abria a palha no sol e deixava ela no sol
e no sereno até ela ficar branquinha, clarinha. Depois que a palha estava seca e
clarinha a gente pegava uma agulha e ia rasgando em tirinhas bem fininhas, as
tirinhas não podia ser muito larga e nem muito fininha.
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O começo era fazendo
quatro partes numa só e ia virando de um lado pro outro formando as tiras. Era
com as tiras que a gente fazia o chapéu. O chapéu de adulto a tira tinha que ter
quatro braços e meio e o chapéu para criança era dois braços e meio. Iniciava o
chapéu pelo fundo dele, formava primeiro o fundo, colocava o fundo em uma forma
de pau bruto. Amarrava o fundo do chapéu na forma e ia costurando, quando
completava a forma a gente fazia a aba. Vendia muito chapéu.
O pessoal só usava
chapéu daqui. A maior fábrica de chapéu era daqui de são Domingos. A forma do
chapéu era de pau maciço. Cada pessoa que fazia chapéu tinha formas de vários
tamanhos. Quando casei fui arrumar na casa do Sr. Benedito Cardoso, lá em
Paracatu. Sai de casa com os convidados todos a pé, eu ia na frente vestida de
noiva com a testemunha, era igual uma procissão com a noiva na frente e fui
casar lá na Igreja da Matriz. Fui recebida na Igreja pelo meu noivo. Depois do
casamento, saímos a pé da Igreja até aqui no são Domingos. Eu e meu marido na
frente e todos os convidados vinham atrás, em par, era igual uma procissão.
Quando chegamos aqui no são Domingos a festa começou e dançamos, comemos e
bebemos até o sol sair.
Depois de casada eu ajudava o meu marido a tocar
lavoura, cozinhava, lavava, passava, apanhava lenha no mato e cuidava dos
filhos. Eu não tinha empregada, só mais tarde que minhas irmàs vieram morar
comigo e me ajudaram. As roupas pra vestir eu fazia todas e depois passamos a
pagar pra fazer.
Sou católica, aprendi com meu pai e minha mãe. Meu pai rezava o
terço e mamãe ajudava o meu pai a rezar. Eles levavam a gente na igreja e depois
passamos a ir na igreja sem eles. Eu tive 15 filhos e morreram 10 filhos no
nascimento. No começo era com as parteiras de depois passamos para as
enfermeiras. Os meus filhos morreram tanto com as parteiras como com as
enfermeiras. O meu parto era muito difícil.
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