O meu pai chamava Gregório Reis e minha mãe Vitória Gonçalves Noronha. O pai de minha
mãe era Pedro Noronha. não lembro quem era o pai de meu pai, só lembro que o
Pedro Noronha morava aqui no são Domingos. Ele tinha um gadinho e vendia leite
aqui mesmo e o gadinho era dele mesmo. O curral era perto da casa da Joaninha,
aqui pertinho, no são Domingos mesmo. Ele me deu uma novilha e eu vendi por
4$000 (quatro mil réis) prá comprar roupa para ir à missa.
Sou muito católico.
Eu fui leguista, todo domingo do mês reunia os homens e rezava, os homens
ajudavam a paróquia. Leguista era o homem que ajudava a paróquia. Eu era um
rapaz calmo e tomava uma pinga e ficava alegre, o pessoal achava até bom porque
eu era muito tímido. Casei com 18 anos e tive 8 filhos e já faleceram três,
sendo que um morreu de mal do umbigo e outro morreu com 4 anos, morreu de
sarampo. Com menino você sabe, todo cuidado é pouco. Eu estava trabalhando na
casa do Dudu Rocha e minha mulher lá chegou. Eu estava trabalhando com o Paulo
Turuna, o pedreiro; eu era ajudante dele, estava fazendo o passeio. Minha mulher
deixou o meu filho doente na Casa do Tote Costa, tinha feito consulta e me
procurou. Saímos e fomos comprar remédio. Depois coloquei ele no colo e ele
acabou, morreu nos meus braços. Voltei com os remédios prá farmácia e entreguei
ao farmacêutico e ele me devolveu o dinheiro.
Sempre trabalhei de servente,
ajudei a fazer o hospital. O que me magoou muito na vida é que fui operado de
próstata e até hoje sinto uma dorzinha e sofro também de labirintite há mais de
dois anos. A gente anda e fica tonto. O que mais magoou o meu coração foi o
Adalberto, morador daqui, ele bebeu muito e ficou tonto, bêbado, e começou a
discutir com Isabel, minha filha, e eu entrei no meio e ele começou acenar e
então eu derrubei ele e ele travou o dente em minha orelha, mas hoje já está
tudo bem, nós já conversa. Eu nasci e fui criado em são Domingos, mas fiquei
fora 20 anos, morando em Brasília, trabalhava numa obra no Banco do Brasil e eu
era servente. Sobre tristeza não tem nada me contrariando, não faço mal a
ninguém, ando todo direitinho.
Rezo muito prá Deus para Ele dar facilidade e
saúde para todos os doentes. Todo ano o trator vinha limpar o meu quintal, o
trator da prefeitura, este ano não veio não, então estou limpando com enxada e
planto milho, mandioca; feijão não dá, planto abóbora. No passado muito
distante, aqui tinha lobo, paca, veado, tatu, capivara e quati. Hoje acabou
tudo, hoje a gente anda por aí e nem vê rastro. Tinha muita pomba e papagaio. A
gente levantava às cinco horas prá vigiar os papagaios para eles não estragarem
o milho e hoje não vê nada.
Aqui em Paracatu passava o córrego são Domingos,
Macaco, são Gonçalo e o Córrego Rico, eles eram diferentes, tinha muita água e
dava muito peixe, dava o dourado, traíra e curumatá acabou tudo. A água era
limpa e tinha muita água, hoje acabou a água e a água é suja e acabou os peixes.
Tinha muita árvore aqui no são Domingos, tinha aroeira, barú, jatobá, cedro,
amoreira e muito coqueiro; derrubaram tudo, hoje não se vê mais nada.
Antigamente aqui também chovia muito, chovia em outubro, novembro, janeiro e
fevereiro, mas chovia muito mesmo. Em janeiro tinha o veranico, isto é, uns dias
parava de chover. A gente daqui usava muito remédio do mato. O meu avô usava
para pressão o chá da gritadeira, uma folha larga prá pressão. Da madeira bugre
fazia o chá prá depurar o sangue. O chá de gengibre prá gripe, a batata de
imberil prá ralear o sangue.
Aqui não tinha médico, no parto das mulheres era as
parteiras. As parteiras eram dona Júlia e Rozena. Elas sabiam como fazer o
parto, dava um chá e o menino saía. até criança atravessada elas viravam. A
mulher do Nico, passou dois dias gritando, a criança estava atravessada e a
parteira arrumou tudo direitinho. A respeito do nosso passado, de onde vieram o
nosso povo eu não sei nada, os velhos não conversavam com os meninos. O meu pai
e minha mãe, com a gente não conversava. Os velhos conversavam entre eles e os
meninos com os meninos. Naquele tempo cada um tinha o seu lugar. O homem mais
antigo daqui era o Domingos Ferreiro, foi embora prá Santo Antônio do Descoberto
prá garimpar e morreu por lá, nunca mais voltou. A vida foi sempre muito dura, a
minha esposa sempre fez chapéu de palha, e eu garimpava ou trabalhava como
ajudante de pedreiro. até hoje a minha mulher continua
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fazendo chapéu de palha prá vender. Antigamente aqui tinha poucas casas, era umas sete casas feitas de
adobe e umas de pau e barro e eram cobertas de telha ou capim. Naquele tempo
tinha mais amizade, conversava mais, saía a qualquer hora, hoje estes moleques
são um perigo. A vida hoje é mais perigosa que antigamente, muito mais. Naquele
tempo nós comia arroz, feijão, carne, verdura, batata doce. Tudo eu plantava só
a carne eu comprava. Naquele tempo parece que era mais fácil comprar carne, era
mais barata. Comprei muita carne na casa do senhor Quinca, comprava costela e
mocotó, para comer com feijão. Aqui não tinha luz e nem água, a água só na praia
de são Domingos.
Eu garimpei muito aqui em Paracatu na praia de são Domingos, no
Macaco, tirei muito ouro, 30 gramas por semana. Trabalhava de bateia e com isto
mantinha minha família, depois eles proibiram e acabou tudo. Trabalhei em
Cristalina tirando cristal no cerrado, eu ia a pé, gastava três dias, chegava lá
mole, Lá eu ficava de dois a três meses e quando voltava trazia uns trocadinhos
prá veia. Trabalhei prá os Botelhos, pro Maninho. Eles ganhavam muito dinheiro.
Trabalhei pro Romualdo Ulhoa, eu ganhava 4$000 (quatro mil réis) e depois passou
prá 6$000 (seis mil réis) por dia. Era um duro lascado, ficava até sem comer de
tanta dor na cadeira, trabalhava de pá. Aqui, esta casa, construí com dinheiro
de Brasília e a veia me ajudando. A veia trança chapéu de palha e açafrão e até
hoje. O dinheiro do garimpo mantinha a casa. Sofri muito no garimpo, ficava tão
cansado que dispensava a comida. Trabalhar no ouro era mais fácil, no cristal
era mais pesado. Quando eles fecharam o garimpo eu já não agüentava mais. A
polícia passou a prender quem tirava ouro.
A minha véia chama Luiza Lopes dos
Reis. A vida de casado é até boa, nunca tive desavença, respeitei meus filhos.
Sempre só tive uma mulher, tudo só aqui em casa, hoje tá tudo sem respeito.
Naquele tempo tinha muito mais respeito. Sempre trabalhei muito, agora aposentei
e agora vivo de férias. Acordo às 6 horas e durmo às 10 ou 11 horas. As festas
daqui são as de são Domingos, são José, Santos Reis, Santa Piedade, Santa Cruz.
Aqui tem missa nas 2a, 3a; e sábado de cada mês. Antigamente, a capela era
construída só no lugar do altar, onde ficava o povo era descoberto, depois o
povo daqui acabou de construir, fechou toda a capela, mas ela ficou velha e
quase caindo e um filho meu, José Lopes dos Reis, derrubou tudo e construiu uma
outra capela, no mesmo lugar da antiga e é esta que está ai hoje, ele desmanchou
tudo e fez uma outra maior. Dentro da capela antiga tinha o coro, subia a escada
e ia pro coro e lá batia o sino. Tinha na capela uns cinco ou três bancos pro
povo sentar. O altar antigo acabou e colocaram um altar novo. O sino veio da
capelinha antiga e hoje está no chào, rachado, não bate mais, não dá mais som. A
igreja antiga tinha Nossa Senhora da Piedade, são Domingos e Santos Reis, eram
de madeira. Os padres levaram na época da derrubada da Igreja e quando a nova
igreja ficou pronta eles mandaram outras imagens feitas de barro, não são as
originais. Santos Reis tinha coroa de ouro, abotoadura de ouro.
O nosso cemitério continua sendo o mesmo de antigamente, é em volta da igreja. Eu
freqüentei escola por pouco tempo, aprendi a assinar o nome, era uma escola onde
é agora o Banco do Brasil, ali tinha um restaurante e nesse lugar tinha aula até
às 22 horas, eu estava com uns 25 anos. Nunca envolvi com política, não bato
papo de política, religiào e jogo. Na época que os revoltosos estiveram aqui em
Paracatu, eu fiquei escondido no capim meloso, fiquei escondido no meio do mato,
perto da cachoeira, com medo deles me pegarem e levar embora. Fiquei no mato uns
dois dias. Aqui em são Domingos a mais antiga é a Felisbina, com 90 e tantos
anos e é moça até hoje; depois eu e o Izídio. Sempre fui muito bem aceito aqui
em Paracatu, nunca ninguém implicou comigo. Aqui no são Domingos como em
Paracatu, para sobreviver, sempre foi necessário o dinheiro prá comprar
mantimento e as coisas que precisávamos e este dinheiro conseguíamos com o ouro
retirado dos córregos, da venda dos chapéus de palha e do trabalho de ajudante
de pedreiro. É uma vida muito difícil.
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