O meu pai chamava Manoel Peixoto e minha mãe chamava Francisca Mundim. Quando eu
nasci, meu pai era vaqueiro do Sr. Osório Botelho, na fazenda Córrego Rico.
Tinha muita doença e perdi quatro irmãos lá na fazenda Córrego Rico. Por causa
das doenças eu não morei na fazenda, ficava aqui em Paracatu, na casa do meu
padrinho Bento Pereira Mundim. A febre matava muita gente.
Estudei o primário na
Escola Estadual Afonso Arinos e estudava muito, gostava muito de estudar, eu era
uma das primeiras alunas da sala de aula. Estudava com minhas amigas e colegas
Zizi Carneiro, Maria de Mello Franco e Anita Rabelo. Eu gostava muito de brincar
de boneca. A velha, uma crioula pobrezinha, fazia boneca de pano e vendia para
nós. O meu pai, mais tarde foi ser vaqueiro na fazenda Varginha, do Joaquim
Brochado, então eu, meu pai, minha mãe e minha irmà Doia, mudamos para fazenda.
Nesta época eu tinha 14 anos. Depois o papai comprou a fazenda Aldeia e mudamos
para lá.
Na fazenda Varginha eu costurava, bordava, brincava de boneca e ajudava
muito a mamãe. A partir dos 15 anos eu tomava conta da casa, cozinhando e
tomando conta dos empregados. Depois de moça, o papai me levava no cinema aqui
em Paracatu. Ele não deixava eu ir para platéia, ele tinha muito ciúme de mim.
Eu só ia pro camarote. O camarote tinha quatro cadeiras e papai pagava 8$000
(oito mil réis). Antes do filme tinha orquestra tocando. Paracatu, naquela época
não tinha luz e nem água encanada. Cada casa tinha um poço que fornecia água
para a casa. Lembro que aqui em Paracatu, na época das eleições, era uma briga
danada entre os partidos.
Era uma briga entre PSD e UDN, saía até morte.
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Eu fui
noiva muitas vezes e naquele tempo só namorava com os olhos, nem pegava nas mãos
e nem sentava perto um do outro. não tinha liberdade naquela época.
Eu nunca dancei no tempo de moça, o papai não deixava. Casei com 28 anos com Francisco da
Cruz Ferreira e vim morar aqui na fazenda da Lagoa e está fazendo 58 anos que
moro aqui. Na fazenda, meu marido tomava conta da roça, plantava arroz, feijão e
cana. Ele fazia rapadura, açúcar e vendia na cidade. Eu, aqui na fazenda, eu
costurava, fazia roupa para vender, fazia terno de casimira acolchoado e vendia
tudo. Além da costura eu cozinhava, lavava, passava e cuidava dos sete filhos.
Nunca precisei do dinheiro do meu marido, eu tinha o meu dinheiro, tirado da
costura. Nunca tive tristeza aqui na fazenda, sempre vivi bem com o meu marido,
nunca nós brigamos. A minha maior alegria na vida é que eduquei todos os meus
filhos aqui do meu lado, aqui na fazenda. Ganhei todos os meus filhos com a
parteira. A parteira era uma preta chamada comadre Joana Teixeira. Aqui na
regiào era só ela. Lembro que as ruas de Paracatu era coberta de pedras grandes
e a rua era abaulada para dentro e a enxurrada corria no centro da rua, no meio
da rua. O meu marido colocava a mercadoria dele no carro de boi e levava para
Paracatu, lá ele vendia tudo. Ele vendia para o Senhor Itamar que era o pai de
Oliveira Mello.
O senhor Itamar tinha um armazém perto do Automóvel Clube. Hoje
tenho os meus filhos criados. Durante toda a minha vida o melhor governo foi o
de Fernando Henrique Cardoso, porque ele deu assistência aos pobres.
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