Meu nome é Anízia Moreira da Silva, nasci em 1906, o meu pai chamava Francisco Moreira da Silva e minha mãe Maria pereira da Silva. O meu pai tinha uma
fazenfinha chamada Fazenda Soares lá na Serra da Contagem, distante de Paracatu
apenas duas léguas. O meu pai, além de tocar a fazenda era carpinteiro e
pedreiro.
O meu avô Domingos Pereira Tavares me contava que todo o calçamento de
Paracatu foi feito pôr escravos. Eles buscavam as pedras lá na Serra e
carregavam aquelas pedras grande na cabeça. O meu avô falava que tinha muita dó
dos escravos, porque eles trabalhavam muito e que foram eles que fizeram o corte
do mestre campos.
Lá na fazenda nós cuidávamos das plantações de mandioca,
milho, arroz, feijão e cana. Nós tínhamos a moagem de cana donde fazíamos a
rapadura e o açúcar de forma. Nós ainda fazíamos a farinha de mandioca. Todo
mundo que morava na fazenda trabalhava muito, a gente acordava antes do sol
nascer e só ia dormir às 9horas da noite. Plantava a mandioca, colhia,
descascava, lavava, ralava, punha na prensa de madeira, esfarelava na roda,
coava e torrava no forno. A gente também fazia a goma da mandioca. A gente fazia
a goma assim: ralava a mandioca, punha água, coava no saco de pano de algodão,
deixava o que foi coado na maceira e quando a goma estava assentada, ia
escorrendo a água e ficava só a goma. Colocava a goma para secar e ai tinha a
goma.
O nosso engenho era de pau e só mais tarde compramos um engenho de ferro. O engenho de pau era tocado a boi e o de ferro com cavalo. A garapa punha no
tacho grande e colocava no fogo até o melado dar ponto, quando dava o ponto
punha na maceira e batia com remo de pau e ao endurecer punha na forma de
madeira, deixava secar e empacotava a rapadura com bagaço de cana. A gente
também fazia o açúcar: deixava o melado dar ponto mais brando e ali ficava até
açucarar e esfriar, então, punha numa forma grande de tábua, espalhava o melado
açucarado bem na forma e quando a forma estava cheia punha uma camada de barro
por cima e ali deixava por oito dias, retirava o barro, e punha o açúcar para
secar. A forma do açúcar tinha um lugar para o melado que não virou açúcar ir
escorrendo. Ficava no varal dois dias secando e depois de seco, batia no açúcar
com o pau para esfarelar bem e depois ensacava. Na fazenda se plantava algodão e
depois de colhido, colocava o algodão no descaroçador, depois batia no arco para
ele ficar solto e depois a gente ia fiar na roda.
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A carne a gente retalhava,
punha na maceira, salgava e punha no varal para secar. Na fazenda criava-se
galinha, porco e gado de leite.Com o leite a gente fazia requeijão e queijo. As
roupas dos homens e mulheres eram feitas lá na fazenda. As roupas de algodão era
para o trabalho e de pano para as festas. As mulheres ainda tinham tempo para
bordar e fazer crochê. As saias eram sempre de algodão, a gente fiava e tingia
com tinta de pau. A blusa era sempre de chita. Os homens usavam as calças e as
camisas de algodão. Na época oportuna a gente enchia o carro de boi de rapadura,
açúcar, queijo, requeijão, goma, farinha de mandioca, carne seca, arroz, feijão
e milho e vinha vender aqui em Paracatu. A gente já tinha os fregueses certos
era só chegar e entregar a mercadoria.
O trabalho na fazenda era muito duro,
pois, além de tudo, tinha que apanhar lenha no mato, lavar roupa, costurar fazer
comida e outros serviços. Eu fiquei crente presbiteriana em 1927 e não sabia
ler, eu pegava a bíblia e ia ajuntando letra por letra até sabia ler. O saber
ler a bíblia foi a maior alegria de minha vida. Eu nunca casei, nunca fiquei com
homem algum, porque Deus não foi servido. não tenho medo da morte, quando Deus
chama é melhor estar lá com Ele do que aqui está.
Quero deixar uma mensagem para
todos, que é ler os Salmos 121 e 23, gosto muito desses salmos e todos os dias
eu os leio e oro a Deus.
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