Eu chamo André Rodrigues, nasci em 29 de abril de 1915. O meu pai chamava João
André e minha mãe Maria Cândida. O meu pai carreava carro de boi, levando
mercadoria para Patos de Minas. Levava arroz, feijão, milho e tecido. Ele morava
em uma fazenda perto da Lagoa Formosa. Mais tarde, toda família mudou para o
Bagre, perto de Vazante, era um povoado.
Ele trabalhava na Fazenda do Belmiro e
levava queijo para Patrocínio e de Patrocínio trazia o açúcar, café e sal.
Depois mudou para os Olhos d'água, fazenda de Sr. Anísio Botelho e tocava
lavoura de cana. Preparava o terreno, plantava e cortava a cana e além disto ele
plantava roça de milho, feijão, arroz, mandioca, e o que sobrava da despesa era
vendido. Ele plantava 3 léguas de canavial, na beira do córrego Olhos d'água. No
tempo certo, a cana era cortada e vendida para o Sr. Anísio Botelho.
Na fazenda do Sr. Anísio agente moía a cana , fazia açúcar, pinga e rapadura. Nós morávamos
na fazenda de graça e o que plantava era vendido para o dono da fazenda. Quando
saía da fazenda, não tinha nenhum direito, deixava tudo lá. Nós ficamos morando
lá uns 5 a 6 anos, mais ou menos.
A minha mãe fazia costura para quem
precisasse, fazia de tudo, costurava para homem e mulher. Ela tecia no tear
fazendo coberta, tapete e pano de algodão. Ela fiava na roda e depois fazia o
pano. Tirava là do carneiro. Nós tínhamos uns 10 carneiros para mamãe tirar a
là.
Em 1930 toda a família mudou para Paracatu, viemos morar no Largo do
Santana, naquela rua que desce para o atual campo de futebol. A igreja do
Santana já estava muito velha, quase desmanchando. Um dia derrubaram a igreja e
levaram tudo dela para a Matriz. Aqui no Santana, apenas a atual rua Sérgio
Ulhoa era calçada de pedra e as ruas restante no Santana, eram de chão. O largo
do Santana era todo de chão, era uma terra vermelha. No arraial d'Angola tinha
poucas casas e tudo era chão.
As casas eram de adobe com telhas comum. No
Paracatuzinho e no Arraial d'Angola tinha rancho de capim.
Aqui em Paracatu,
toda a família passou a trabalhar tirando ouro na praia do Santana e no Brocotó.
Nós levantávamos às 6:00h. da manhà para tirar ouro. Rapava a terra no barranco,
punha no caixote, jogava água e ia lavando a terra. O esmeril ficava no caixote
e escorria também para o pano. A gente recolhia o esmeril e batiava e tirava o
ouro. Na bateia era só a água que lavava o esmeril, não colocava mercúrio nem
azougue. Secava o ouro e colocava no vidro e vendia aqui na cidade. A gente
fazia 100$000 ( cem mil reis) por semana. Pegava um caixote e colocava nele 4
pernas do mesmo tamanho. Punha na boca do caixote um ralo. O ralo era uma folha
de lata furada com prego. Furava a folha todinha com prego. Jogava a terra com
cascalho em cima do ralo. O cascalho grosso não vazava, isto é, não caía dentro
do caixote. Dentro do caixote só caia a água e o esmeril. Na ponta do caixote a
gente fazia uma bica de tábua e dentro da bica colocava um pano de linhagem. A
água passava no pano e o ouro ia ficando grudado no pano.
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Tinha também o
trabalho de puxado. A gente fazia um buraco na praia com 2 a 3 metros de largura
de profundidade. A profundidade era até pegar o barro. Lá dentro do buraco, com
uma enxada de cabo cumprido a gente ia puxando o cascalho e a terra para fora da
água. Lá dentro do buraco ia puxando o cascalho para direita e esquerda, sendo
que no meio ficava o cascalho fino com o esmeril. Este cascalho fino e o esmeril
era então colocado no caixote para tirar o ouro.
Era muita gente tirando ouro,
só os ricos não mexiam com o ouro. Todo pobre, inclusive as mulheres e os filhos
pequenos tiravam ouro. O ouro dava para o sustento folgado da família. Depois,
larguei o ouro e fui tocar boiada a cavalo. O meu patrão era Iraci Costa e a
fazenda era em Monte Carmelo. Vinha aqui em Paracatu comprar gado, trazia
toucinho para vender e comprava boi de corte. Vinha o patrão, eu e mais 4 a 5
peões, todo mundo montado em burro. Cada peão trazia dois burros, um para montar
enquanto o outro descansava. Comprava boi também em Formosa dos Couros, e em Vão
dos Angicos. A gente comprava 1.500 a 2.000 bois. Para tocar toda esta boiada
gastava uns 10 peões, todos montados em burros. Na frente da boiada ia o peão
tocando berrante, dos lados e atrás da boiada ia o restante da peãozada . Muito
na frente da boiada ia o cozinheiro, o ajudante, o cargueiro e tropa de burro
que estava atoa. Quando chegava no ponto de pouso a comida já estava pronta,
deixava o gado no pasto e a gente ia comer. Quando a noite chegava, parava a
boiada e os peões iam jantar e depois dormir na rede. De Paracatu a Monte
Carmelo gastávamos uns 10 dias. A comida era arroz, feijão, carne de sol .
Trabalhei nesta fazenda uns cinco anos.
Na cabeça do arreio sempre tinha um
litro de pinga e a gente ia tomando umas goladas. Naquele tempo a pinga era
muito boa. A estrada de Paracatu a Guarda-Mor é esta mesmo que está aí, só que
era de chão puro. A boiada era contada a noite, na hora que punha no pasto.
Contava também de manhà quando ia pegar a boiada. Em vez em quando era contada
na passagem da porteira, durante o dia.
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