Os meus pais de criação eram o Joaquim Pereira da Silva e Cristina Ribeiro da
Silva. Ele trabalhava na Roça Grande lá em João Pinheiro. Ele era muito, muito
farturento .
Todo ano ele plantava e colhia. Quando acabava o serviço de roça
ele pegava uma empreitada, construía casa, era mais procurado que os outros. Os
outros trabalhavam e não faziam fartura. A Roça Grande era no Buraco da Onça,
tinha este nome porque um caçador matou uma onça lá. Os meus pais legítimos eu
não conheci.
Antigamente o povo andava todo engomado. A minha mãe nunca me bateu
mas o meu pai já me bateu muito. Eu fazia muita malineza. Os pais naquele tempo
eram muito bravo. O pai amarrava o filho no pau e sentava o couro. Quando não
podia bater na hora, pegava a gente quando estava dormindo. As coisas de
primeiro era muito apertada, o menino que escutava os mais velhos conversarem
apanhava, não podia ouvir nada que os mais velhos falavam. Quando eles estavam
conversando a gente chegava na porta, o pai só olhava para traz e a meninada
saía correndo.
Quando nascia uma criança, a mãe enrolava o menino na baeta
vermelha e assim ficava 15 dias enrolada sem poder sair do quarto. O povo bebia
muito, mas, não brigava. Era costume fazer mutirão na roça e quando acabava o
mutirão era uma festa com muita pinga e comida. Quando cheguei aqui em Paracatu
eu tinha 23 anos, era o ano de 1916.
Eu já vim casado com Joana Ferreira Mendes
e tive com ela 8 filhos. Só casei na igreja, naquele tempo só casava na igreja.
Eu fui com minha família morar no Brocotó, lá eu tocava roça, desmatava, mexia
na moagem de cana e no engenho de pau, eu também fazia farinha. O Brocotó era de
Carlos Tunes, trabalhei com ele quatro anos, Ele era um pai.
Quando a gente não
colhia nada a gente passava a viver na tuia do patrão. Foi o melhor patrão que
encontrei. Estava com um filho muito doente, então o Carlos Tunes me mandou aqui
para cidade para cuidar do meu filho. Já fazia anos que ele estava doente, ele
inchava todo, dos pés a cabeça.
Ele ficou internado com Dr. Romero. O Dr.Romero
falou que o meu filho ficaria com ele um mês e sairia bom, ele ficou no hospital
velho, um mês depois estava curado. O Carlos Tunes arrumou para mim um emprego
na prefeitura onde trabalhava fazendo valeta.
Fiquei na prefeitura 14 anos. Do
Brocotó mudei para uma casa de aluguel na travessa Espírito Santo, depois mudei
para outra casa de aluguel na atual praça são bom Jesus. Um dia a prefeitura me
deu um terreno, hoje rua Gaspar Gotrib. O terreno era uma grota e um murundum.
Quando chegava na parte da tarde, pegava a enxada e arrumava o terreno,
enterrando a grota e tirando o murundum. Aqui tudo era puro mato virgem e foram
fazendo casa, fazendo casa até virar um arraial. As casas eram cobertas de telha
comum, palha ou capim.
As casas eram feitas de pau a pique e depois barriada com
a mão. A palha para cobrir a casa era de buriti. As ruas eram para aqui e para
ali, depois é que foi formando as ruas alinhadas. Antes eram umas ruas tortas
que iam seguindo as direções da casas. O momento mais alegre de minha vida foi
quando casei. Foi um festão, o sogro matou capado e galinha. Tinha peixe e muito
doce. O pessoal dançou até o sol alto.
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Eu tirei o terno, a gravata e dancei a
noite toda. Eu tive umas 20 namoradas, aproveitei o meu tempo bem aproveitado. A
gente namorava no buraco da parede , olhando no buraco da parede. não pegava na
mão da namorada, só fui pegar na mão de minha noiva quando casei. Naquele tempo
tinha muita festa, cada dono de casa fazia uma festa. Era de sanfona, toque de
caixa, viola, berimbau e gaita.
Dançava com o corpo longe um do outro, não podia
encostar um no outro. não tinha banheiro, tomava banho na bacia de pau, era o
bacião. O povo todo era festeiro, a gente ajuntava umas 10 pessoas e batucava
até o galo cantar.
Era costume acordar as duas da madrugada e ia batucando e
cantando na estrada para ir encontrar com o sol, quando o sol saia a gente
voltava cantando e depois ia trabalhar. A gente comia de tudo, colocava um palmo
de toucinho no feijão com pé, orelha e rabo de porco. Comia tudo e o povo de
hoje não agüenta comer toucinho no feijão. O povo de João Pinheiro era matador.
Tinha o Coronel Farnésio que possuía uns 20 jagunços. Ele morava no Rio da
Prata, do lado de cá , era muito respeitado e tinha fila de jagunço. Tinha
outras pessoas bravas que era o Juca Cordeiro, Bastião Mendonça, Moacir Oliveira
e Matias.
Eles matavam e jogavam para lá. Os jagunços matavam e tiravam a orelha
do defunto para provar que matou. Tinha também em João Pinheiro o coronel
Hermórgenes que era muito bravo. O povo de Paracatu tinha um medo danado de João
Pinheiro.
Aqui em Paracatu a fazenda Brocotó foi de Santos Roquete e ele matou
muita gente, ele até cortou o pescoço de um menino. Mandou o menino caçar um
cavalo e o menino não trouxe o cavalo e ele de tanta raiva, cortou o pescoço do
menino. Ele era muito ruim.
Ele gostava de matar para ver o cara fazer careta.
Um dia ele vinha para Paracatu a cavalo e passou um cavaleiro por ele. O Santos
Roquete olhou para traz, chamou o cavaleiro pelo nome e quando o homem olhou o
Santos Roquete matou ele com um só tiro. O Santos Roquete vendeu o Brocotó para
o Carlos Tunes e acabou roubando um gado do Carlos Tunes . O Santos Roquete foi
preso e morreu dentro da cadeia.
Eu não tinha medo de assombração e um dia fui
trabalhar num lugar para fazer cachaça. A noite fechei a porta do galpão com
chave e coloquei a chave embaixo do travesseiro e dormi. Acordei com a porta
abrindo. Peguei a chave e fui na porta, mas ela estava fechada e trancada.
Comecei a ficar com medo e fui deitar e passei a escutar um despejar pinga no
cocho, depois escutei um descarregar carga de cana, eu passei a ficar bem
quieto. Escutei na rebaixa o moer, o encher o tacho de garapa, a batida do
melado. Depois de tudo isto escutei o moer milho, virei a cara para a parede com
as costas para fora, estava até tremendo de medo. Então escutei a assombração
aproximando e recebi uma palhada nas costas sem ter palha alguma. A cama ficou
toda molhada de suor. Depois fiquei sabendo que aquele lugar era assombrado. De
lá para cá, nunca mais vi ou escutei alguma coisa deste tipo.
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