Pai, nos cantos de seus olhos, uma lágrima constante, permanente, insiste em
denunciar suas emoções, trazidas pelas lembranças que uma vida inteira
acumulou. Cada gesto de cada um de seus filhos, netos,
lembra-lhe sempre alguma coisa; cada música que entoa
baixinho, leva-o de volta a situações outras preciosas, de seu
rico passado. Um passado que não é tão distante assim.
Parece que foi um dia destes. Seus cabelos não tinham acumulado a névoa do tempo
que os embranqueceram;
seu andar era ligeiro, decidido.
PAI, as rugas que você traz em sua testa, vincada pelo passar dos dias, meses,
dos anos...em cada uma delas estou presente ! Nas suas noites mal
dormidas; nos presentes que não pode comprar. Nos meus anseios !
Suas mãos generosas que tantas vezes seguraram as minhas, também
sofreram os efeitos desse tempo implacável, que a ninguém e a nada
perdoa; que mesmo assim ainda hoje, nos meus dias de incerteza e
hesitação, procuram, meio trêmulas, me amparar !
PAI, seu sangue nobre que em minhas veias corre; o quase mesmo tom de voz; meu caráter
moldado pelos ensinamentos que você me transmitiu e pelas coisas que
vi você fazer...são as marcas que você me deixou. A herança
maior que de você herdei. Eu sou seu filho ! Sou o que gosto de ser !
Uma imagem que lembra a sua, seu jeito, sua continuidade ! A prova
viva de sua fértil e boa semente; a prova de que a vida não passou por
você; você, imponente, passou por ela deixando a sua
marca!
...PAI